RASPEI O CABELO! E AGORA!?

Raspei a cabeça, sim! 
Minha decisão não foi repentina. Na verdade, foi um processo que demorou cerca de 15 anos para acontecer. Na minha adolescência, eu olhava para mulheres brancas e dizia: se meu cabelo fosse como o seu, eu raspava.

Quando apareci de visual novo ( raspei em desde janeiro de 2015), um monte de gente veio me perguntar o motivo. Sim, as pessoas ainda te questionam sobre decisões exclusivamente pessoais. Mas, como entendo que a nossa aparência física, a nossa estética, e os padrões estéticos não são apenas questão de gosto, são também o resultado de nossa relação com o mundo e do mundo com a gente, eu resolvi que o primeiro post do tão demorado Blog da Central das Divas tinha que ser sobre minha decisão de raspar a cabeça. 


As perguntas que me fizeram sobre meu novo visual, em geral não foram invasivas, mas elas refletem um pouco da relação que se faz entre feminilidade e o modo como você usa seu cabelo.

Vejam algumas das respostas que dei e tirem suas próprias conclusões: “eu não tive corte químico, nada deu errado nos meus alisamentos, afinal, eu não aliso mais”; “eu não fiz big chop por causa da minha transição capilar (processo que  eu já havia passado, e demorou alguns anos, mas é assunto para outro post); “eu não deitei para o santo, nem fiz obrigação na minha religião (ainda... porque não vejo a hora!); “eu não precisei de coragem, foi até fácil”; “eu não perguntei sua opinião” (esta resposta foi para o indivíduo que veio me dizer: “EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO”)Ou seja, em geral as pessoas imaginavam que alguma força maior tinha me levado a raspar a cabeça. Como alguém tão feminina como eu poderia continuar sendo feminina com o cabelo raspado? Mais do que isso: como uma mulher negra, que vive em função da sua relação de amor e ódio com seu cabelo pode acordar um dia e raspar a cabeça sem ter sido forçada a isso?

Na verdade, minha decisão de raspar foi por um motivo maior sim: um amor que se consolidou nos últimos anos... O amor a mim mesma. Do jeitinho que eu sou. Meu processo de enegrecimento me levou a me olhar sucessivamente no espelho e ter certeza que minha boca carnuda é linda, que meus olhos castanhos dizem coisas lindas, que o formato do meu rosto combina com minha pele, meu nariz tem um formato que fica mais bonito quando eu sorrio, minha testa grande dá uma expressão especial ao meu perfil, que meu cabelo é meu e posso fazer com ele o que quiser! Percebi que eu não precisava mais de cachos para emoldurarem meu rosto, ou esconderem meus traços de africana da diáspora. Na verdade, posso ter moldura ou não, por que na verdade o que vejo no espelho me agrada e muito! Este foi o grande motivo por trás da minha decisão de raspar a cabeça. A profundidade com que minha auto-estima estava se expressando dia após dia.

Cortar o cabelo não foi difícil. Difícil foi mudar os padrões de beleza que estavam construídos e impregnados em mim. Padrões que fazem com que passemos uma vida tentando ser diferentes do que somos. Padrões que fazem mulheres negras se olharem no espelho e verem suas características como algo feio, algo a ser transformado ou escondido. E ainda tem a sessão de tortura: cabelo crespo é ruim de crescer, se cortar ele pode crescer em um formato inesperado, negra de cabelo curto fica masculinizada. TUDO MENTIRA! E o pior: não conseguimos nem perceber o quanto isso nos destrói. Precisamos primeiro perceber que nossos olhos são treinados para encontrar a beleza apenas em algumas formas e cores, hegemônicas, padronizadas.  Esse é o primeiro passo para a gente desconstruir estes padrões que nos perseguem e destroem. Assim, finalmente poderemos treinar nossos olhos para ver e gostar do que somos e de onde viemos.
Logo depois do corte e minha carinha de feliz com as cabeleireiras
E em janeiro de 2015, me sentindo plena e bela como eu sou, acordei, entrei em um salão e disse: corta! Máquina 2, por favor!

Difícil foi a cabeleireira ter coragem! Gravei um vídeo na hora e ela me perguntou sucessivas vezes se eu teria coragem mesmo. Passou máquina 4, achando que eu não havia percebido e eu disse: corta mais!

Eu amei o resultado. Passados 5 meses, não estou alucinada para que meu cabelo cresça, esperando os cachinhos se formarem a qualquer custo. Na verdade, eu já comprei minha própria máquina e quando quero vou lá e raspo a cabeça novamente. Ou faço uma coloração, ou coloco mini flores. Ou me turbanto. Ou simplesmente passo minutos me admirando, vendo o quanto de mim está ainda mais negra depois que cortei meu cabelo.

Às garotas e mulheres negras que sentem no seu íntimo que precisam fazer algo por si mesma, que estão cansadas de se olharem e não gostarem do que vêem no espelho, não se machuquem, não tenham pressa... Não há nada de errado com você, nem com o espelho. São centenas de anos de construção de padrões que nos degradam, não é nada fácil desconstruir um padrão estético que é reforçado dia após dia: em novelas, comerciais, no momento da paquera. Mas, temos muita preta linda amando seu cabelinho curto, exibindo ainda mais sua beleza preta e isso já é uma forma de incentivo e valorização.
 Mas, a valorização de nossa estética, da estética do povo negro, não se dará separada da luta por melhores condições de vida para nós. Cada vez que conquistamos espaços, e ocupamos estes espaços assumindo as características de nossa ancestralidade temos mais condições de bater na mesa e dizer NÃO, NÃO ME SUBMETEREI. E hoje, com meus cabelos crespos, muito curtos e pintados num rosa intenso, em cada lugar que vou, eu dou o recado, sem precisar nem abrir a boca: NÃO, NÓS NÃO NOS SUBMETEREMOS AOS SEUS PADRÕES.

7 comentários:

  1. Parabéns, Carol. Eu amei o blog, amei saber da tua experiência!

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  2. "E TENHO DITO!"
    Sensacional! Aliás, como você e tudo o que você faz!

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  3. Sempre te admirei através dos olhos de Digo!
    Moça, você broca!
    Adoro!
    Linda muito!

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  4. Boquiaberta!! Amei tudo que li. Reflete o que eu penso e vivo! Raspei a cabeca a três meses atrás...e agora de novo...

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  5. Aline, obrigada! Que bom saber que dialogo com outras mulheres!

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