Mostrando postagens com marcador black lives matter. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador black lives matter. Mostrar todas as postagens

CONHEÇA SAN BASÍLIO DE PALENQUE: a primeira comunidade negra livre das Américas

Quem tem a oportunidade de conhecer a Colômbia acaba se voltando para alguns dos clássicos turíticos do país. O que muita gente não sabe é que o país abriga a primeira comunidade negra livre das Américas.

O nome do lugar mágico é: San Basilio de Palenque.

Lembrando que não é Palenque de San Basilio. Os palenqueros argumentam que o povo não é do santo mas o santo é do povo.


Fui parar em San Basílio quase que por um acaso e acabei descobrindo mais uma história que honra a ancestralidade negra. 
Estava em Cartagena, fazendo o clássico roteiro para quem conhece a Colômbia: Bogotá-San Andrés-Cartagena. Ao fazer o check-in no hostel em Cartagena, conheci uma brasileira que era professora de história que me contou sobre a existência de San Basilio de Palenque. Ao saber do que se tratava, eu mudei todos os meus planos pra dedicar um dos meus três dias de Cartagena ao deslocamento e visita à San Basilio. 

Como chegar a San Basilio de Palenque

Está a 50 km de Cartagena que é capital do departamento de Bolívar, no norte da Colômbia. 
No próprio hostel consegui contratar um transporte para chegar a San Basílio. 
O motorista nos pegou às 8 da manhã e nos esperou até o fim do passeio, que foi ate o meio da tarde.
Estávamos em 4 pessoas e compensou contratar um morista particular, mas se você quiser também pode ir de ônibus.

No Terminal de ônibus de Cartagena das Indias, você pega um ônibus direto para o Palenque, mas esse ônibus não é muito frequente. Mas, você tem uma outra opção. Tome um ônibus para Mahates, Bolívar e pede para descer no Palenque. Depois de uma hora, você vai descer em um cruzamento e pegar um moto táxi que te deixa no seu destino final. Com esse transporte, você vai gastar cerca de 10.000 pesos (em 2017 equivalia a cerca de 3 dólares)

A visita a San Basílio de Palenque

Fomos recebidos por alguns guias. A economia do local gira em torno das visitas turísticas e das fotos que são tiradas ao lado das "palenqueras" que estão em todos os lugares de Cartagena. Recomendo a contratação de um guia, tanto para impulsionar a economia local, como porque uma das tradições africanas mantidas por lá é a oralidade. Os guias são decendestes diretos dos fundadores da comunidade e sabem de detalhes incríveis. 


Contratamos um guia chamado John Salgado. O cara foi super gentil e entendia muito da história do local. Super recomendo, inclusive, no fim do post, eu passo o telefone dele. Ele explica muito da história não apenas do palenque, mas também dos negros e negras foram escravizados na Colômbia. O que me fez ter certeza o quanto nós temos em comum com as pessoas negras em todo o continente.

O palenque de San Basilio foi fundado por negros e negras escravizados que fugiam principalmente deCartagena das Índias, no século XV. É importante saber que o porto de Cartagena das Indias é o segundo porto que mais recebeu pessoas negras sequestradas do continente africano para serem 
escravizadas, estando atrás apenas do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Ao descobrir isso, entendi muito da energia de Cartagena e de San Basilio do Palenque. 

Na praça central do Palenque há uma estátua muito grande e imponente que logo a gente entende o motivo. A estátua é de Benkos Biohó, que foi principal liderança na fundação de San Basilio do Palenque. Sua imagem é forte e tem o braço estendido em direção à África, com correntes quebradas penduradas nos pulsos.
Benkos foi sequestrado de Guiné Bissau e vendido como escravo,  mas escapou do porto de Cartagena em 1599. Com sua fuga, ele formou um exército de escravizados que fugiam e se concentraram na região em que foi fundado o palenque. Eu fiquei tao impressionada com a história de Benkos que dei esse nome a um dos meus gatinhos. 😸 

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi saber que Benkos criou uma rede de inteligência para ajudar mais pessoas negras a fugirem. Inclusive, a história sobre mapas desenhados nas tranças nagôs foi confirmada por John. Mapas para os palenques eram traçados nas penteados nagôs de pessoas escravizadas. Centenas de escravizados fugiram para San Basílio de Palenque o que fez com que o governo de Cartagena buscasse um acordo de paz com Benkos , que foi finalmente selado em 1612. Mas, como a gente sabe que não dá pra confiar em colonizador, obviamente o acordo foi violado pelos espanhóis em 1619, quando capturaram Benkos em Cartagena e o executaram em 1621.

No entanto, a resistência continuou e em 1691, a Coroa espanhola emitiu um decreto real oficialmente libertando os africanos em San Basilio de Palenque da escravidão. Assim, eles foram os primeiros africanos livres nas Américas e fez de Palenque o primeiro território negro livre nas Américas. 

Organização social, cultura e legado 

A luta desse povo ajudou a preservar tradições culturais africanas tais como a música, práticas médicas, organização social, ritos fúnebres. 

Uma herança de ancestrais africanos é os “ma-kuagro”. Através deles, a sociedade se divide em grupos de idade através dos quais são realizadas a divisão de trabalho, a proteção do território, a conservação das tradições baseadas na honestidade, na solidariedade e no espírito coletivo.

A "junta" é também uma forma de organização utilizada em San Basilio de Palenque em que as pessoas se agrupam com um propósito concreto (por exemplo alguma doença) e depois do objetivo alcançado, a junta se desfaz. 

As tradições funerárias de influência africana de Palenque, conhecidas como lumbalu , também foram mantidas. Assim como o fato de terem uma organização "policial" própria - a Guarda Cimarrona - em que os conflitos são resolvidos a partir da intervenção do membro mais velho da família, o que reforça mais uma herança dos povos africanos. 

Em San Basilio de Palenque também foi criada uma língua crioula, o palenquero, que é uma mescla do espanhol com as línguas africanas originárias, principalmente o bantu. O palenquero é a única língua crioula de origem espanhola que existe no mundo. 

Além do idioma, no palenque se conservou a música africana e a tradicional forma de fabricação de instrumentos para interpretá-la, como tambores (os mais conhecidos são: o pechiche, o bongó, a timba, o bombo, o llamador e o alegre), a marimbula e as maracas.

Casa da música
Música negras são celebradas por lá

A champeta, que é um gênero musical foi criada em San basilio de Palenque e se tornou popular em toda a Colômbia e América Latina. Famosos praticantes do gênero como Charles King, Louis Towers e Rafael Cassiani Cassiani nasceram em Palenque, assim como os membros do popular novo grupo de rap colombiano, Kombilesa Mi. A tradição musical do lugar é celebrada anualmente no festival mais famoso de Palenque: Festival de Tambores e Expressão Cultural que é realizado todos os anos em outubro.

O Palenque é também o berço de famosos artistas e esportistas da Colômbia. O pugilista colombiano Antonio 'Kid Pambelé' Cervantes - duas vezes campeão mundial - tem uma estátua no trajeto que fazemos para conhecer o lugar. 


Não posso deixar de falar das palenqueras! São mulheres negras com vestidos super coloridos que vendem em doces de coco tradicionais, desenvolvidos ao longo de centenas de anos dentro da comunidade, balançam em suas cabeças as palanganas cheias de frutas frescas e que são personagens das fotos mais incríveis que você pode tirar em Cartagena. 


As características únicas na história do palenque fizeram com que o lugar fosse declarado pela Unesco como " Patrimônio Intangível da Humanidade" e é considerado o primeiro povo livre da América.

O que fazer em San Basilio de Palenque
  • Faça um passeio guiado - as principais histórias serão contadas por palenqueros 
  • Conheça as estátuas de Benkos Biohó e Kid Pambelé
  • Conheça a casa do maestro Rafael Cassiani - pude conhecer ele pessoalmente e ele é incrível


Maestro Rafael Cassiani
  • Beba ñeque - bebida típica do local
  • Faça fotos! A clássica foto ao lado do muro azul com a frase "I love being black" que tem nos feeds de instagramers por aí foi tirada lá. O lugar é super simples, mas você vai querer registrar tudinho. 


Fiz essa viagem em 2017. Anotei tudo que vi, mas nunca tive uma necessidade tão grande de contar como essa viagem foi incrível como estou agora. 
Se forem escolher um destino na América Latina, pensem com carinho na Colômbia. 

O querido John Salgado vai adorar receber a mensagem de quem precisar de guia! +573127192542





10 MOMENTOS EM QUE AS MULHERES NEGRAS DESAFIARAM A SUPREMACIA BRANCA EM 2016



O ano de 2016 não foi fácil no mundo inteiro, especialmente quando falamos das comunidades negras. No Brasil, a mortalidade de juventude negra continua batendo recordes. Além das medidas tomadas pelo governo golpista que atingem frontalmente a população negra, por estarmos nas posições mais frágeis no Brasil. Nos Estados Unidos, o assassinato dos negros gerou uma onda de mobilizações que rodou o mundo. A eleição de Dolnnald Trump também parece ser um forte indicio de que a situação de negros e latinos deve piorar por lá.
Mas, se falamos de opressão, falamos de resistência. E quando falamos de resistência falamos das mulheres negras que estão sempre demonstrando sua força pelo mundo todo.
Nesta postagem, que foi inspirada em um vídeo da página do Facebook do AfroPunk, trazemos 10 momentos simbólicos em que as mulheres negras desafiaram a supremacia branca em 2016. São momentos que aconteceram fora do Brasil, mas que são inspiradores e mostram que nunca aceitamos e nem aceitaremos o massacre do povo negro em nenhum lugar do mundo.

Inspirem-se!
Vidas negras importam!

1. Ieschia Evans sem medo de ser presa pela polícia de Baton Rouge, julho de 2016


Ieshia Evans é uma jovem enfermeira de 35 anos, mãe de um filho e moradora de Nova York. Ela viajou até Lousiana para participar do protesto contra o racismo da polícia norte-americana que vitimou Alton Sterling.  Durante o protesto, ela desafiou calmamente, a polícia que estava fortemente armada. Esta foto rodou o mundo, demonstrando a coragem das mulheres negras durante os protestos.
Segundo o New York Daily News, Evans passou a noite de sábado na prisão - segundo as autoridades, mais de 100 pessoas foram presas.

2. Tess Asplund se levantou fortemente contra a violência e supremacia branca do Movimento Nórdico de Resistência na Suécia, maio de 2016


Tess Asplund é uma ativista negra de 42 anos e enfrentou bravamente uma marcha organizada pelo Movimento de Resistência Nórdica (NRM) que é conhecida pelos seus ideias neonazistas, na cidade sueca de Borlänge. 
De punho cerrado e peito aberto, a ativista de 42 anos foi de encontro à manifestação organizada pelo Movimento de Resistência Nórdica (NRM), que seguia por uma das principais vias do município sueco Borlänge.

3. Aschley Williams confrontou Hillary Clinton "Eu não sou super-predadora", fevereiro 2016


Durante um evento de angariação de fundos em Charleston, na Carolina do Sul, a ativista Ashley Williams, da Black Lives Matter, fez um cartaz citando comentários da candidata presidencial Hillary Clinton feitos em 1996, quando ela incentivou a aprovação de leis que aumentam o encarceramento maciço, dizendo que os jovens negros eram "super-predadores"

Ashley foi taxativa e lacradora: "Eu não sou uma 'super-predadora', Hillary Clinton. Você pode se desculpar com os negros pelo encarceramento em massa?"

4. Simone Biles e a equipe norte americana de ginástica que foram treinadas por  "imigrantes ilegais"


Simone Biles é um fenômeno nunca antes visto no mundo da ginástica. Ela foi a primeira ginasta em seu gênero a ganhar três Campeonatos Mundiais consecutivos no individual geral, a primeira afro-americana a obter um título nessa prova. Em 2016, ela subiu ao pódio 5 vezes nas Olimpíadas do Rio de Janeiro com 4 medalhas de ouro e uma de bronze. 

Além do talento de destaque, Biles contou com o treinamento do casal romeno Bela e Marta Karolyi, que também treinaram Nadia Comaneci. Em tempos de eleição de Donald Trump, ver como atleta mais importante do EUA negra e ainda mais treinada por imigrantes é grande tapa na cara da sociedade.

5. Angela Davis lança  o livro "Freedom is a constant struggle" sobre a violência racial institucionalizada, fevereiro de 2016


Neste livro, ainda sem versão no português, Angela Davis aborda a violência racial na história ao redor do mundo e seus movimentos de resistência.
No Brasil, em 2016, tivemos o famoso livro da mesma autora publicado: Mulheres, Raça e Classe. O livro tem o prefácio de ninguém menos que Djamila Ribeiro,  e é um clássico da ativista negra norte-americana sendo publicado pela primeira vez no Brasil.

6. Lançamento de 13ª emenda, por Ava DuVenay


O documentário da NetFlix foi lançado em outubro de 2016 e é grande favorito na categoria documentário do Oscar 2017. 
Ava DuVenay, mesma diretora de Selma (2014), escreve, produz e dirige o documentário que leva o nome da décima terceira alteração na Constituição dos Estados Unidos, a qual, segundo o filme, foi uma alternativa de manter trabalhos braçais mesmo após a abolição da escravidão, com o processo de encarceramento em massa.

7. Julissa Ferreras-Copeland e seu projeto de distribuição de coletores menstruai, março de 2016


A vereadora Julissa Ferreras-Copeland lançou um projeto de distribuição gratuita de coletores menstruais nas escolas públicas, presídios e abrigos na cidade de Nova York. Além de prestar assistência às mulheres mais pobres o projeto visa combater os tabus que ainda envolvem a menstruação.

8. Leah Penniman e seus projetos de soberania alimentar

Leah é uma agricultora norte americana que desenvolve projetos educacionais para eliminar o que ela chama de "apartheid alimentar". Ela também é educadora na área de biologia e ciência ambiental em tempo integral. Isso permite que ela trabalhe no que ama - conectando os jovens ao mundo natural - e traz renda extra para sustentar a fazenda que é base do trabalho que ela desenvolve com jovens negros e latinos, oferecendo uma alternativa ao encarceramento e pauperização. Penniman acredita que a aprendizagem sobre o manejo da terra e a produção de alimentos ato suficiente é uma forma de redistribuição de riqueza. Isso sim é poder!

9. Entrevista de Chimamanda Ngosi Adichie, novembro de 2016


A autora foi convidada para discutir a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, com R. Emmet Tyrell, editor-chefe da American Spectator. Eles protagonizaram uma discussão sobre lugar de fala ao vivo na BBC Newsnight.

Ao ser contrariado, Tyrell tentou deslegitimar a fala de Chimamanda, para encerrar o assunto, a autora ainda tentou, mais uma vez, explicar ao editor o que era lugar de fala: “Não, você não senta aqui e diz que ele não é racista. Objetivamente falando, Donald Trump é racista. Isso não é sobre a sua opinião é sobre um fato”, disse. Bateção de cabelo puro, né?

10. Nascimento do Backing Black Business, a partir do Movimento Black Lives Matter, pelas mãos de Alicia Garza, Opal Tometi e Patrisse Cullors



O movimento "Black Lives Matter" foi fundado por três ativistas negras: Alicia Garza, diretora da National Domestic Workers Alliance (Aliança nacional de trabalhadoras domésticas), Patrisse Cullors, diretora da Coalition to End Sheriff Violence in Los Angeles (Coligação contra a violência policial em Los Angeles) e Opal Tometi, ativista pelos direitos dos imigrantes.
O grupo tem ações desde 2014 e este ano teve importante atuação nas mobilizações contra a violência da policia norte americana.
Em 2016, o grupo ampliou suas ações com a criação de uma iniciativa de valorização dos negócios empreendidos por negros e negras nos Estados Unidos da América: Backing Black Business. Fortalecer o comércio entre nós é uma grande forma de valorizar o afro-empreendedorismo. 


*************************************************************************************************************

Gostaram?
Estamos preparando um post sobre momentos importantes que as mulheres negras desafiaram a supremacia branca no Brasil.
Alguma sugestão?
Comente abaixo.
Compartilhe este post