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Rosa Parks: "eu estava cansada de ceder" (30/31)



No penúltimo dia do #julhodaspretas - sim, já estou ficando triste e arrasada - vamos falar de uma preta que se tornou símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América: Rosa Parks. Ela fica famosa, quando, em 1º de dezembro de 1955, recusa-se a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco. Ela se torna o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery e posteriormente viria a marcar o início da luta antissegregacionista. Conhecer sua história é entender o que estava por trás deste ato que foi um marco histórico.

Rosa Parks nasceu Rosa Louise McCauley em Tuskegee, Alabama, em 4 de fevereiro de 1913, filha de uma professora e um carpinteiro. Ela foi uma criança com a saúde frágil, tinha frequentes crises de amigdalite. Quando seus pais se separaram, ela se mudou com a mãe para Pine Level, logo abaixo da capital do estado, Montgomery. Ela cresceu em uma fazenda com seus avós maternos, mãe e irmão mais novo, Sylvester. Todos eles eram membros da Igreja Episcopal Metodista Africana (AME), instituição negra independente fundada por negros livres na Filadélfia, no início do século XIX

Rosa frequentou escolas rurais até a idade de onze, depois foi para o Alabama State Teachers College para negros, mas teve que abandonar os estudos cuidar de sua avó e depois de sua mãe, depois que eles ficaram doentes. 

Em torno da virada do século 20, os antigos estados confederados adotaram novas constituições e leis eleitorais que efetivamente excluíam os eleitores negros e, no Alabama, muitos eleitores brancos pobres também. As empresas de ônibus e trem aplicavam políticas de assentos com seções separadas para negros e brancos. O transporte de ônibus escolar não estava disponível em qualquer forma para escolares negros no Sul, e a educação negra sempre estava subestimada.


Repetidamente intimidada por crianças brancas em seu bairro, Parks muitas vezes teve que lutar fisicamente com elas. Ela disse mais tarde que "até onde eu me lembro, nunca poderia pensar em aceitar abusos físicos sem alguma forma de retaliação". 

Em 1932, Rosa se casou com Raymond Parks, um barbeiro de Montgomery. Ele era membro de uma associação de negros que na época estava coletando dinheiro para apoiar a defesa dos Scottsboro Boys - um grupo de homens negros acusados ​​falsamente de estuprar duas mulheres brancas. Rosa ocupou inúmeros empregos, que vão desde trabalhadora doméstico até assistente de hospital. Por insistência do marido, ela terminou seus estudos de ensino médio em 1933, época em que menos de 7% dos afro-americanos tinham um diploma do ensino médio.

Em dezembro de 1943, Parks tornou-se ativa no Movimento dos Direitos Civis, ingressou no grupo em que o marido já militava. Em 1944, na sua qualidade de secretária do grupo, ela investigou o estupro coletivo de Recy Taylor, uma negra de Abbeville, Alabama. Rosa e outros ativistas dos direitos civis organizaram o "Comitê para a Justiça Equitativa para a Sra. Recy Taylor", lançando o que o Defensor de Chicago chamou de "a campanha mais forte para a igualdade de justiça a ser vista em uma década". Embora nunca tenha sido membro do Partido Comunista, ela participou de encontros com o marido.


Em agosto de 1955, o adolescente negro Emmett Till foi brutalmente assassinado depois de ter paquerado uma mulher branca enquanto visitava parentes no Mississippi. Em 27 de novembro de 1955, quatro dias antes de subir no ônibus, Rosa Parks participou de uma reunião de massa na Igreja Batista Dexter Avenue em Montgomery que abordou este caso, bem como os recentes assassinatos dos ativistas George W. Lee e Lamar Smith. O apresentador principal foi T. R. M. Howard, um líder negro de direitos civis do Mississippi que liderou o Conselho Regional de Liderança Negra. Howard trouxe notícias da recente absolvição dos dois homens que assassinaram Till. Parks estava profundamente triste e irritada com a notícia, particularmente porque o caso de Till ganhara muito mais atenção do que qualquer dos casos em que ela e sua organização haviam trabalhado.

O sistema de segregação de lugares no transporte já vinha sendo alvo de protestos dos negros, mas nada havia mudado. Em Montgomery, as primeiras quatro filas de assentos em cada ônibus eram reservadas para brancos. Pessoas negras deveriam sentar-se na parte traseira dos ônibus, local onde haviam poucos lugares, uma vez que 75% de quem utilizava os ônibus eram pessoas negras. Assim, elas podiam sentar-se nas fileiras do meio até a seção branca preenchida. Se mais pessoas brancas precisassem de assentos, pessoas negras deveriam ir para a parte traseira, ou ficar em pé ou, se não houvesse espaço, sair do ônibus! Ao entrar em um ônibus, se já houvessem pessoas pessoas brancas sentadas na frente, as pessoas negras deveriam entrar pela frente, pagar a tarifa e depois desembarcar e voltar a entrar pela porta de trás.

Um dia em 1943, Parks embarcou num ônibus e pagou a tarifa. Ela então se mudou para o assento, mas o motorista James F. Blake disse-lhe para seguir as regras da cidade e entrar novamente no ônibus da porta dos fundos. Quando Parks saiu do veículo, Blake saiu sem ela. Parks esperou o próximo ônibus, determinada a nunca mais andar com Blake. Ou seja, ela já vinha passando os mais diversos constrangimentos a anos. 

Depois de trabalhar o dia todo, Parks embarcou no ônibus da Cleveland Avenue, às 6h da quinta-feira, 1 de dezembro de 1955, no centro de Montgomery. Ela pagou sua tarifa e sentou-se em um assento vazio na primeira fila de assentos traseiros reservados para pessoas negras. Perto do meio do ônibus, ela estava bem longe dos assentos reservados para passageiros brancos. Inicialmente, ela não percebeu que o motorista de ônibus era o mesmo homem, James F. Blake, que a deixara na chuva em 1943. Enquanto o ônibus viajava ao longo de sua rota regular, todos os assentos brancos no ônibus foram preenchidos. Foi quando o motorista notou que dois ou três passageiros brancos estavam de pé, exigiu que quatro passageiros negros cedessem seus lugares para os passageiros brancos. Três passageiros negros se levantaram e Rosa Parks se recusou a fazê-lo. Em sua biografia ela declara que pensou em Emmett Till quando se recusou a levantar. Blake disse: "Por que você não se levanta?" Parks respondeu: "Eu não acho que eu deveria ter que me levantar". Blake chamou a polícia para prender Parks. Ela foi presa! Parks foi acusada de uma violação do Capítulo 6, Seção 11, Lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar de tecnicamente, ela não tivesse tomado um assento branco. 

Em sua autobiografia, My Story, ela disse:

"As pessoas sempre dizem que não desisti do meu assento porque estava cansada, mas isso não é verdade. Eu não estava cansada fisicamente, nem mais cansada do que costumava estar no final de um dia útil. Eu não era velha, embora algumas pessoas tenham uma imagem de mim como sendo idosa então. Eu tinha quarenta e dois anos. Não, só tinha um cansaço, eu estava cansado de ceder."

A comunidade decide por um boicote aos ônibus de Montgomery. O Conselho Político das Mulheres foi o primeiro grupo a endossar oficialmente o boicote. No domingo, 4 de dezembro de 1955, os planos para o boicote aos ônibus de Montgomery foram anunciados em igrejas negras na área, e um artigo de primeira página no Montgomery Advertiser ajudou a difundir a palavra. Em uma reunião da igreja naquela noite, os participantes concordaram por unanimidade para continuar o boicote por mudanças no transporte.

No dia seguinte, Parks foi julgada acusada de conduta desordenada e violando uma ordenança local. O julgamento durou 30 minutos. Depois de ser considerado culpada, pagar multa e os custos judiciais, Parks apelou a sua condenação e impugnou formalmente a legalidade da segregação racial. O boicote no dia do julgamento de Parks foi vitorioso, mesmo com chuva, a comunidade negra aderiu fortemente ao movimento. A partir de então, a população negra cria o "Montgomery Improvement Association" (MIA) para continuar a organização do boicote. Seus membros são eleitos e como seu presidente foi eleito o jovem Martin Luther King Jr.

O boicote de ônibus em Montgomery continuou por 381 dias. Dezenas de ônibus públicos ficaram ociosos há meses, prejudicando gravemente as finanças da companhia de trânsito, até que a cidade revogou sua lei que exigia segregação em ônibus públicos após a decisão do Supremo dos EUA em Browder v. Gayle de que era inconstitucional. 

A prisão de Parks foi o catalisador da organização dos negros, primeiro em Montgomery e depois no restante do país. Após ser solta, ela passa a ser ameaçada de morte, perde o emprego e se vê forçada a sair da cidade. Começa a viver em Hamptom, mas continua militando a favor dos direitos civis por muitos anos. Ela ganha diversos prêmios e homenagens por sua atuação a favor dos direitos civis.

Parks residiu em Detroit até morrer de causas naturais aos 92 anos em 24 de outubro de 2005, em seu apartamento no lado leste da cidade. Ela e seu marido nunca tiveram filhos. Seu enterro e funeral tiveram as honrarias de um chefe de estado. No vídeo abaixo, podemos ver o discurso do - ainda senador - Barack Obama prestando homenagens à Rosa Parks em seu funeral.


VIVA ROSA PARKS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!

Chimamanda Ngozi Adichie e o perigo da história única (28/31)

Ela já era mundialmente reconhecida como um dos maiores talentos literários de sua geração e acabou se popularizando quando Beyoncé escolheu um trecho de sua palestra “Sejamos Todos Feministas” (que foi transformada também em livro) para usar na música e no clipe “Flawless”, de seu álbum homônimo de 2013. Estamos falando de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela é a 28ª preta que homenageamos no #julhodaspretas na Central das Divas. Ela não é nascida no continente americano, mas tem influenciado muito o mundo ocidental, por isso, resolvemos falar dela no #julhodaspretas.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 15 de setembro de 1977. Ao todo, ela tem 5 irmãos e é filha de um professor universitário e uma funcionária da Universidade da Nigéria, que por sinal foi a primeira secretária do sexo feminino da universidade.

Chimamanda começou seus estudos na Universidade da Nigéria, na área de estudou medicina e farmácia, por um ano e meio. Por lá, ela editou The Compass, uma revista feita por estudantes de medicina da universidade católica. Aos 19 anos, a escritora mudou-se para os Estados Unidos para estudar. Foi quando estudou comunicação e ciência política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, tendo estudado depois em Eastern Connecticut State University para viver mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Em 2003, ela completou um mestrado em escrita criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. 


A carreira de Chimamanda é recheada de prêmios desde seus primeiros escritos. Sua primeira publicação foi uma coletânea de poemas em 1997 (Decisions) e, logo depois, uma peça (For Love of Biafra) em 1998. Já em 2002, foi indicada para o Prémio Caine com o conto "You in America".

Em 2003, sua história "That Harmattan Morning" ganhou o prêmio O. Henry para "The American Embassy". Ela também ganhou o David T. Wong Prêmio Internacional de Contos 2002/2003 (PEN Centro Award) e uma Beyond Margins Award por seu conto "A metade de um sol amarelo" de 2007.

Seu primeiro romance, Purple Hibiscus (2003) foi aclamado pela crítica e recebeu o Prêmio Commonwealth Writers como Melhor Primeiro Livro (2005).

Seu segundo romance, Half off a Yellow Sun, nomeado em homenagem a bandeira da nação de Biafra, se passa antes e durante a Guerra de Biafra. Esta obra também foi premiada com o Orange Prize de 2007 para Ficção. Half off a Yellow Sun foi adaptado para um filme com o mesmo título, dirigido por Biyi Bandele, estrelado pelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor e por Thandie Newton, lançado em 2014. Seu terceiro livro, The Thing Around Your Neck (2009), é uma coleção de histórias curtas.

Em 2010, ela entrou na lista dos 20 autores de ficção mais influentes com menos de 40 anos."Ceiling", foi incluída na edição do The Best American Short Stories 2011.Em 2013 ela publicou seu terceiro romance, "Americanah" que foi selecionado pelo New York Times como um dos 10 Melhores Livros de 2013.

Além do sucesso em livros, as palestras de Chimamanda correram o mundo na internet. "O perigo das histórias únicas" foi um sucesso no TED em 2009. Você pode assistir este vídeo legendado abaixo:




Mas, o maior sucesso da autora, transformado em livro, foi a palestra realizada "Sejamos todos feministas" no TEDxEuston, realizada em 2012. Este discurso é aquele que incorporado, em 2013, na música "Flawless" da cantora americana Beyoncé. No discurso, ela compartilhou sua experiência de ser uma feminista africana, e sua visão sobre construção de gênero e sexualidade.

″Eu estou com raiva. A construção de gênero do modo como funciona atualmente é uma grave injustiça. Todos nós deveríamos estar com raiva. Esse sentimento, a raiva, é importante historicamente para as transformações sociais positivas, mas além de estar com raiva eu também estou esperançosa porque eu acredito profundamente na habilidade dos humanos de se reinventarem e se tornarem melhores".

O vídeo está disponível abaixo e vale a pena assistir mais uma vez!


Muito orgulho de uma mulher tão jovem e negra que tem ditado muita coisa importante no movimento de luta das mulheres. São as mulheres negras mostrando que não há uma história única.


VIVA CHIMAMANDA!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!





No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Victoria Santa Cruz: gritaram-me negra! (26/31)

No dia 26 dos 31 dias do nosso #julhodaspretas vamos homenagear a poeta, coreografa, folclorista e estilista peruana Victoria Santa Cruz


Certamente você já deve ter lido ou ouvido seu mais famoso poema e não sabe muita coisa sobre sua vida. "Gritaram-me negra" viralizou na internet este ano mas, não sabemos muita coisa sobre sua autora. Mas, para nós, é fundamental aumentar a visibilidade de quem protagoniza as milhões de produções que chagam até nós. Nossa tarefa é ajudar a tirar as mulheres negras da invisibilidade, dar rosto e vida a elas e às suas ações, como dissemos no texto do dia 25/07.

Se você ainda não viu o vídeo, veja. Vale a pena!




No vídeo, a própria, Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra declama seu poema, com sua voz forte e marcante. Ela faz relata sua própria experiência com racismo, vivida com apenas 7 anos em um grupo de amigos que a expulsaram simplesmente por ser negra.Este fato marca sua reflexão sobre o racismo e que a fizeram entender desde muito cedo as condições que as pessoas negras são submetidas. 

Victoria nasceu em 1922, na cidade de La Vitoria, província de Lima, Peru.Desde criança a arte e a cultura afro-peruana a rodeava. Nicomedes Santa Cruz Aparicio, se pai, foi um importante dramaturgo e poeta, e sua mãe, Victoria Gamarra, foi bailarina de marinera (dança típica do Peru que une raízes culturais indígenas, africanas e espanholas) e filha de um famoso ator.

Victoria cria o grupo Cumanana juntamente com seu irmão mais novo, o também poeta, pesquisador e jornalista Nicomedes Santa Cruz Gamarra. O grupo se torna um dos primeiros grupos teatrais inteiramente integrado por negros . O objetivo era difundir as diversas vertentes da cultura afro-peruana. Foram lançados alguns discos contando a história dos afro-peruanos e de suas manifestações artísticas.

A artista tem a possibilidade de viajar a Paris para estudar na Universidade de Teatro das Nações e Escola Superior de Estudos Coreográficos. Durante seus estudos, a Victoria se destaca como figurinista, trabalhando em obras como “El retablo de Don Cristóbal”, de García Lorca e em “La Rosa de Papel”, de Ramón Del Valle Inclán.

Ao retornar para o Peru, ela funda a “Companhia Teatro e Danças Negras do Peru” que se apresenta nos melhores teatros e na televisão, chegando inclusive a representar seu país nos Jogos Olímpicos do México em 1968. Em 1970, ela recebe o prêmio de melhor folclorista no primeiro Festival e Seminário Latino-americano de TV, organizado pela Universidade Católica do Chile.

Victoria ainda faz uma turnê mundial com sua companhia, especialmente nos tempos em que era diretora do Conjunto Nacional de Folclore do Instituto Nacional da Cultura. Victoria chegou a fazer turnês pelos Estados Unidos, El Salvador, França, Bélgica, Suíça, entre outros países. 

Victoria Santa Cruz torna-se professora na requisitada Universidade Carnegie Mellon, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Inicialmente, ela é convidada a lecionar nesta universidade, mas anos depois torna-se professora vitalícia.

Em 2014, a artista morre aos 91 anos, deixando um importante legado cultural e político. Foi porta voz da dor e da resistência das mulheres negras latino americanas.


VIVA VICTORIA SANTA CRUZ!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




Kimberlé Crenshaw e o feminismo interseccional (24/31)

Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959) é uma advogada norte americana e uma importante referência no campo conhecido como teoria crítica racial. Ela é professora titular da Faculdade de Direito da Universidade de Califórnia e da Universidade de Columbia, onde se especializou em questões de raça e gênero. Ela é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como as identidades sociais sobrepostas ou interceptadas, particularmente as identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. 


Crenshaw nasceu em Canton, Ohio, em 1959. Ela recebeu um diploma de bacharel em estudos africanos na Universidade de Cornell, em 1981. Ela é fundadora do campo da teoria crítica racial e professora de direitos civis, estudos críticos de raça e Lei constitucional. Em Columbia, ela é fundadora e diretora do Centro de Interseccionalidade e Estudos de Política Social, criada em 2011. Em 1996, ela co-fundou e se tornou diretora executiva do centro de pesquisa sem fins lucrativos e centro de informações, The African American Policy Forum, que se concentra em questões de gênero e diversidade.

O African American Policy Forum (AAPF) é um grupo de reflexão focado em desmantelar a desigualdade estrutural e avançar e expandir a justiça racial, a igualdade de gênero e a indivisibilidade de todos os direitos humanos, tanto em Estados Unidos como internacionalmente. Em 2001,  Crenshaw escreveu o documento de referência sobre Raça e Discriminação de Gênero para a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Racismo. 

Mas, Kimberlé Crenshaw é conhecida principalmente por introduzir a teoria da interseccionalidade na teoria feminista na década de 1980. Sabe-se que o conceito de interseccionalidade não é novo, mas ela foi formalmente reconhecida a partir da sistematização de Crenshaw. Sua inspiração para a teoria começou enquanto ela ainda estava na faculdade e ela percebeu que as relações de gênero e raça estavam extremamente frágeis. 

Entre as principais publicações de Crenshaw temos "A Intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero" que você encontra neste link. Além deste texto, ela publicou trabalhos sobre direitos civis, teoria jurídica feminista negra e racial, racismo e lei, dando uma importante contribuição ao debate feminista no mundo.

VIVA KIMBERLÉ CRENSHAW!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Elza Soares: a mulher do fim do mundo (23/31)


Continuamos nossas homenagens às pretas que nos inspiram no nosso #julhodaspretas e vamos descobrindo tanto detalhe da vida dessas maravilhosas que até emociona. No dia 23 do #julhodaspretas, vamos homenagear a cantora Elza Soares. Uma história muito sofrida está por trás dessa voz poderosa.

Elza da Conceição Soares é o nome de nascença da diva. Ela é carioca nascida em 1930. Teve uma infância muito pobre e aos treze anos de idade seu pai a obrigou a parar de estudar. Acabou se casando aos 14 anos e tendo seu primeiro filho na mesma idade. Em sua primeira apresentação artística, foi vítima de chacota e preconceito por sua aparência. No programa de Ary Barroso na Rádio Tupi, onde fez sua primeira apresentação ao vivo no auditório da emissora, o apresentador pergunta ironicamente: "De que planeta você veio?", ao que Elza respondeu: "Vim do mesmo planeta que o senhor". "E posso saber de que planeta eu sou?". "Do Planeta Fome". Ainda assim, Elza se destacou e recebeu as melhores notas.


Aos quinze anos de idade outro filho seu faleceu. Ela passou a trabalhar como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão para sustentar a família enquanto o marido se recuperava de tuberculose. Aos 21 anos e 5 filhos, Elza ficou viúva. Começou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica, profissões que exerceu por muitos anos. 

Aos 32 anos, com uma carreira consolidada conhece o jogador de futebol Garrincha. Em inicio de carreira, foi vítima de machismo. O fato de ele ser desquitado e ela com 5 filhos, geraram ataques da sociedade contra ela. Elza era xingada, ameaçada de morte, sua casa era alvejada por ovos e tomates. Ela era acusada de ser pivô do fim do casamento de Garrincha. Elza e Garrincha foram casados por 16 anos, de 1968 a 1982. Foi um casamento conturbado pelo ciúme e alcoolismo de Garrincha. Durante o tempo em que estiveram juntos, ela rodava os bares pedindo para ninguém dar bebida alcoólica ao marido. 

Mesmo com tantas histórias difíceis, Elza constrói uma carreira brilhante. Nos anos 70, Elza realizou uma turnê pelos Estados Unidos e Europa. Em 2000, foi premiada como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres.

O álbum Do Cóccix até o Pescoço garantiu-lhe uma indicação ao Grammy, em 2002. Em 2007, nos Jogos Pan-americanos do Brasil, Elza interpretou o Hino Nacional Brasileiro, no início da cerimônia de abertura do evento, no Maracanã. No mesmo ano, lançou o álbum Beba-me, onde gravou as músicas que marcaram sua carreira.

Em 2014, estreia o show A Voz e a Máquina, estando no palco apenas pelos DJs Ricardo Muralha, Bruno Queiroz e Guilherme Marques. No ano de 2015, Elza Soares lançou o seu disco A Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. Este ábum é premiado diversas vezes. Em 2015, vence o prêmio de melhor álbum no Troféu APCA. Em 2016, ganha como melhor álbum o Prêmio da Música Brasileira, o Prêmio Multishow de Música Brasileira e o Grammy Latino. Ela venceu também como melhor música - "Maria da Vila Matilde" - os mesmos prêmios. 

Aos 87 anos, apesar de já ter sua saúde debilitada, Elza Soares mostra que ainda tem muito a contribuir com a arte. 



VIVA ELZA SOARES

VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Lélia Gonzalez: intelectual e militante a serviço da transformação social (18/31)


No dia 18 dos 31 do #julhodaspretas da Central das Divas vamos falar de Lélia Gonzalez. Nascida em Belo Horizonte, em 1935,  era filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena era a penúltima de 18 irmãos. 

Lélia mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942. Lá ela trabalhou inicialmente como babá, mas pode estudar e graduar-se em História e Filosofia, seguindo carreira de professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social e o doutorado em antropologia política. Suas pesquisas são dedicadas às pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.


No final da década de 1960, quandi atuava como professora de Ensino Médio no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (UEG, atual UERJ), as aulas de Lélia se tornaram espaço de resistência e crítica político-social. Como importante militante de movimentos sociais, Lélia ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, elegendo-se primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente elegendo-se suplente.

Toda sua obra e atuação foram permeados por sua atuação política em diversos setores em especial na luta de negros, principalmente das mulheres negras e deixa um importante legado. Certamente, Lélia é uma das maiores referência para as mulheres ainda hoje.


VIVA LÉLIA GONZALEZ! 
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Conceição Evaristo: um presente para a literatura brasileira (17/31)

No dia 17 dos 31 dias do #julhodaspretas vamos homenagear a escritora e ativista Conceição Evaristo. É sempre um prazer poder homenagear mulheres contemporâneas que estão por aí ainda brilhando para que a gente possa reverência-las ainda em vida. 

Conceição nasceu em uma favela da zona sul de Belo Horizonte.  Em uma família muito pobre, tendo 9 irmãos ela conciliou os estudos com o trabalho empregada doméstica, até concluir o curso normal, aos 25 anos.  


Em 1971 ela muda-se para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ. Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje, coletivo cultural responsável pela publicação dos Cadernos Negros, onde estreia na literatura, em 1990.

Ainda no Rio de Janeiro, Conceição faz seu mestrado na PUC, em Literatura Brasileira, e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Em suas obras, a escritora aborda questões relacionadas à discriminação racial, de gênero e de classe, especialmente em Ponciá Vicêncio, de 2003. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007. 


“Olhos d’água” é uma obra muito marcante de Conceição Evaristo ( ed. Pallas/ Biblioteca Nacional ), tendo ganhado um prêmio Jabuti (contos) no ano de 2015. São 15 contos que trazem personagens muito reais: negras, mulheres, ex-prostitutas, pobre. O nome do livro dá nome também à primeira primeira história, que fala de uma mulher às voltas com a imagem que guarda de sua mãe.

Atualmente leciona na UFMG como professora visitante e milita ativamente no movimento negro, com grande participação e atividade em eventos relacionados a militância política-social.

VIVA CONCEIÇÃO EVARISTO!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Um ano sem Luiza Bairros: o legado de uma guerreira (12/31)

Aproveitamos a homenagem às mulheres negras no mês de julho, para também lembrar que perdemos a militante e intelectual negra brasileira Luiza Bairros há 1 ano atrás. Ela deixa saudades, mas também deixa um legado forte e importante. 

Luiza Helena de Bairros, conhecida como Luiza Bairros (1953-2016), mulher negra, nascida em Porto Alegre, foi uma importante intelectual e ativista do movimento negro no Brasil. 

Luiza Bairros se formou em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fazendo seu mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a dissertação O Negro na Força de Trabalho na Bahia, entre os anos 1950 -1980. Em seu estudo, ela destacou a discriminação racial no mercado de trabalho, indicando que quanto maior a ascensão dos negros mais acirrado é o racismo. Seu estudo de doutorado, em sociologia, foi realizado na Universidade de Michigan (USA).



Em seus estudos, Luiza Bairros realizou importantes pesquisas sobre a história do movimento negro brasileiro e de seus personagens, buscando sistematizar o legado da feminista negra Lélia Gonzalez.

Segundo Fernanda Pompeu, o que levou a gaúcha Luíza Bairros a trocar Porto Alegre por Salvador foi a concentração de afro-descendentes, sendo radicada em Salvador desde 1979. Em terras soteropolitanas, Luiza foi uma liderança do Movimento Negro Unificado (MNU); trabalhou em programas das Nações Unidas contra o racismo, em 2001 e em 2005 e foi titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Social da Bahia, de 2008 a 2010.  Entre os anos de 2011 e 2014, Luiza Bairros foi e ministra-chefe da Secretaria de Políticas Públicas da Igualdade Racial. Durante sua gestão, foi aprovado o estatuto da igualdade racial.

No vídeo abaixo, Luiza Bairros fala brilhantemente sobre a importância da sociedade se dedicar ao debate da igualdade racial.


Pude conhecer e ver a força de Luiza Bairros pessoalmente. Foi um momento de fortalecimento da importância de ouvir nossas mais velhas e aprender com elas.



VIVA LUIZA BAIRROS!
VIVA AS MULHERES AFRO LATINO AMERICANAS!

No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!


Leia o texto de Luiza Bairros, NOSSOS FEMINISMOS REVISITADOS





Rita Ribera: a noventa anos uma negra realizava o primeiro voto de uma mulher na América do Sul (03/31)


No terceiro dia de celebração do #julhodaspretas, falamos de Rita Ribera: a primeira mulher a votar na América do Sul. Há pouca informação sobre Rita Ribera, entretanto, sabe-se que há 90 anos atrás, ela, mulher negra, tornou-se a primeira mulher a votar na América do Sul.



O voto feminino é muito recente quando comparada à história da democracia representativa. Homens brancos e ricos já foram os únicos portadores de direitos civis, políticos e sociais. Durante muito tempo, a luta pelo direito ao voto representou a luta pelo direito à cidadania. O direito ao voto representava o poder sobre as decisões públicas, portanto pelos rumos das decisões políticas. Entretanto, mesmo depois de tantos anos da era moderna, as decisões públicas ainda são marcadas por gênero, raça e classe.

A luta pelo voto feminino tem seu berço na Europa onde se misturava à luta do movimento operário contra a exploração dos trabalhadores. Nas Américas, em 1787 foi promulgada a Constituição dos Estados Unidos, entretanto só em 1919 definiu o direito de voto para as mulheres, através da Emenda Dezenove. O movimento sufragista nasceu com a luta contra a escravidão em meados do século XIX, tendo inclusive a participação fundamental de mulheres negras ex-escravizadas.

Na América do Sul, o voto feminino no Uruguai foi regulamentado em 1932. As mulheres votaram na primeira eleição nacional em 1938. Entretanto, em plebiscito na localidade de Cerro Chato, em que foi instituído o sufrágio universal, Rita Ribera, mulher preta, imigrante brasileira, foi a primeira mulher a votar na América do Sul.
Sabemos que as decisões públicas ainda são marcadas por gênero, raça e classe, portanto saber que a primeira mulher a exercer o direito ao voto foi uma mulher negra mostra a importância que as mulheres negras têm na história. Entretanto, o apagamento da participação de mulheres negras na história é tamanho que não encontramos imagens públicas de Rita Ribera. Entretanto, a celebramos porque sabemos que nossas vitórias de hoje são resultado da história de mulheres como ela.


Viva Rita Ribera!

Viva as mulheres negras!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!


*O primeiro país latino-americano a regulamentar o voto feminino foi o Equador em 1929. O voto de mulheres no Brasil foi adotado em nosso país em 1932, através do Decreto nº 21.076 instituído no Código Eleitoral Brasileiro, e consolidado na Constituição de 1934.

*Mais informações sobre o Plebiscito em Cerro Chato e o voto feminino