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25 PALESTRAS IMPERDÍVEIS DE MULHERES NEGRAS NO TEDX

      O TED (sigla de Technology, Entertainment, Design) é uma série de conferências realizadas pelo mundo pela fundação Sapling, dos Estados Unidos, sem fins lucrativos, destinadas à disseminação de ideias – segundo as palavras da própria organização, "ideias que merecem ser disseminadas". Suas apresentações são limitadas a dezoito minutos, e os vídeos são amplamente divulgados na Internet.
       Em março de 2018, tive a oportunidade de ser uma das palestrantes do TEDx, que aconteceu em Campinas. Os organizadores entraram em contato comigo através de indicações e acharam interessante minhas contribuições como pesquisadora aliadas à minha trajetória na militância. Em conjunto, nós pensamos em uma palestra que pudesse questionar o status quo e levasse um pouco da minha trajetória para enriquecer as reflexões. O resultado foi uma palestra que abordou o "mito da meritocracia".
         Optei por questionar o que está por trás da ideologia do "quem quer consegue" que individualiza os sucessos e fracassos em uma sociedade que cria oportunidades desiguais para os diferentes grupos sociais. A partir da perspectiva da meritocracia, uma pessoa não atinge determinados objetivos por não ter se "esforçado" o suficiente. Entretanto, ao analisar os grupos que menos atingem os objetivos que socialmente são encarados como "sucesso", vemos que são os mesmos grupos que enfrentam barreiras como o racismo, machismo, homofobia e outras opressões. Seria coincidência? Acredito que não. Sem dar mais spoilers... o link do vídeo está aqui.
          Durante o processo de preparação da minha palestra, procurei assistir a outras palestras realizadas no TEDx e que dialogassem com meus interesses. Eu vi dezenas de palestras bacanas, por isso resolvi fazer uma coletânea de palestras proferidas por mulheres negras em uma playlist do YouTube. São palestras inspiradoras que me fizeram pensar muito, mas acima de tudo entender como as mulheres negras têm contribuído com um novo paradigma de sociedade. Este é o verdadeiro sentido do que diz a filósofa Angela Davis:

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

           Abaixo, você encontra um pouco da descrição de cada palestra e/ou palestrante e aqui você encontra o link da playlist completa. Se você quiser, pode ver cada vídeo em separado clicando no título de cada um.

 VEJA, ESCUTE, LEIA MULHERES NEGRAS



Começo pela minha palestra que foi realizada em Campinas, em março de 2018. Mulher nordestina, negra, candomblecista, feminista e militante.  Mestra e doutora em Educação pela UNICAMP, concluí doutorado sanduíche na Universidade de Tecnologia de Braunschweig, Alemanha. Em 2015, estive na lista das 25 mulheres negras mais influentes da internet no Brasil. 



Pesquiso sobre educação e ciência - a partir de uma perspectiva marxista, feminismo negro e estética. Também atuo como professora e afro-empreendedora através da Central das Divas.



Nataly fala da expectativa que envolve a menina negra em se tornar a "mulata", que seria uma preta mais "aceita socialmente"
Nátaly é estudante de Ciências Sociais na Unifesp, em São Paulo, tem interesses como moda e beleza. Seu canal no Youtube (Afros e Afins) é incrível e aborda diversos temas de interesse das mulheres, em geral, e em especifico das mulheres negras.



Essa palestra é incrível! Primeiro porque a Monique tem um jeito muito didático de falar e segundo porque acho que ela dialoga muito com o mito da meritocracia. 
Monique é uma das vozes do feminismo negro no Brasil e fala da veia empreendedora nas mulheres negras. Ela é formada Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em Política e Gestão da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, já foi capa da Revista Época, Repórter do Profissão Repórter, é Fundadora da Desabafo Social.



Essa é uma das palestras proferidas no TEDx mais assistidas em todo o mundo. Não é por pouco. A Chimamanda é uma escritora nigeriana que já ganhou prêmios no mundo inteiro por suas obras e tem seus livros traduzidos em 31 idiomas. Tudo isso, até os 40 anos de idade! 
Essa palestra é cheia de humor, mas ao mesmo tempo muito profunda e cheia de reflexões importantes. 


Outra excelente palestra da Chimamanda. Com mais de 3 milhões de visualizações, a autora chama atenção sobre a necessidade de compreender o mundo a partir de suas diversas variáveis, afinal nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas.



Kimberlé W. Crenshaw é uma norte americana defensora dos direitos civis e uma dos principais intelectuais da teoria crítica da raça. Ela é professora em tempo integral na Faculdade de Direito da UCLA (Universidade da Califórnia) e na Columbia Law School. Crenshaw é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como identidades sociais sobrepostas ou interseccionadas, particularmente identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. No #julhodaspretas, em 2017, já escrevi um pouco sobre a Crenshaw aqui no blog. Você pode ler o texto completo neste link.
Nesta palestra, Kimberlé Crenshaw resgata a história de vítimas do racismo para falar sobre a importância da interseccionalidade. Esta é uma das três melhores palestras que já vi sendo proferidas no TEDx. 


Djamila é mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já atuou como secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Ela também é colunista da revista Carta Capital e publicou os livros "O que é lugar de fala" e "Quem tem medo do feminismo negro".
Ouvir a Djamila falar é sempre ótimo. Ela tem objetividade sem tratar os temas de forma superficial. Dá sempre vontade de ouvir mais e mais.


Kenia Maria é atriz, roteirista e empresária. Kenia foi nomeada pela ONU Defensora dos Direitos das Mulheres Negras, em 2017. No YouTube, ela arrasa, desde 2013, com a filha Gabriela Dias, o marido Érico Brás, o filho Mateus Dias com o canal de Youtube. No vídeo, ela fala sobre as motivações que as levaram a criar o canal trazendo importantes reflexões sobre questões raciais.

Karina Vieira é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Políticas Sociais pela Universidade Castelo Branco. Ela também atua como Consultora de Comunicação do Baobá – Fundo pela Equidade Racial e Diretora de Comunicação da AUR. 



No vídeo, Karina explana sobre a formação das identidades e o que envolve este processo.  Ela apresenta exemplos de mulheres e situações que estão contribuindo para a formação positiva desta identidade. Ela também reforça a importância da atuação coletiva. Tudo com aquele carisma incrível da Karina.


Apontada pela Forbes como um dos destaques brasileiros abaixo de 30 anos, Lisiane Lemos é co-fundadora da Rede de Profissionais Negros, coletivo que busca desconstruir barreiras entre profissionais negros e empresas por meio de políticas de diversidade e movimentos sociais. Lisiane fala sobre a descontruconstrução de estereótipos em seu trajeto. 


Carla Fernandes é angolana radicada em Lisboa. Formou-se em tradução das línguas inglesa e alemã. Em 2014, Carla criou o audioblogue Rádio AfroLis onde afrodescendentes que vivem em Lisboa partilham as suas estórias e falam sobre a sua visão pessoal da cidade.
A contribuição mais incrível de sua palestra é fazer a gente pensar sobre o que tem sido chamado "lugar de fala". Os diferentes lugares sociais são demarcadores dos posicionamento de mundo.


Karine de Souza é natural de Barra Mansa/RJ e é a criadora da Negrita Modas. Faz ativismo através da moda e da arte. No vídeo, ela fala sobre a (re)descoberta da identidade negra e como esse processo, em constante movimento, leva ao empoderamento não apenas seu mas de negros e negras que a rodeiam.


Marta Celestino é diretora de Marketing e Novos Negócios na Ebony English, gestora em educação e documentarista. Idealizadora do projeto Diaspora Connections, que visa reconectar a comunidade negra global num movimento de troca de experiências, celebração de conquistas e resgate cultural. 
Nesta palestra, Marta fala sobre coletividade e os aprendizados da ancestralidade.


Presidente do Instituto Das Pretas.Org, ativista social e blogueira. Priscila é uma das grandes referências do Espírito Santo quando o assunto é valorização da estética, autoestima, empreendedorismo e consumo negro. O Instituto que comanda já promoveu diversas ações, de maneira autônoma e independente, que ajudaram a espalhar a importância do empoderamento afrocentrado no coletivo.

15. Uma jornada na busca por identidade e propósito | Juliana Luna | TEDxUERJ

Juliana Luna é editora de estilo da Revista AzMina, estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Neste vídeo ela fala um pouco sobre a reconstrução de sua identidade como mulher negra. Através do depoimento dela, a gente descobre um monte de pequenas coisas sobre nós mesmas.


"Você entende porque ser negra é um problema?" foi a frase que ela ouviu ao tentar seguir a carreira de modelo. Neste vídeo, Luana fala sobre como começou a compreender o racismo a partir de sua experiência como modelo. Atualmente, ela é diretora executiva do ID_BR - Instituto Identidades do Brasil.


Alexandra Loras é ex-consulesa francesa. Ela é graduada com Mestrado em Gestão de Mídia pela escola de Ciências Políticas da França (IEP Paris), consultora e palestrante. Neste vídeo ela fala sobre a construção de estereótipos e seu papel na síndrome do impostor. Particularmente, tenho divergências com Loras - como ela afirmar que existe racismo reverso, por exemplo , mas acho essa palestra muito interessante para pensarmos no racismo como um fenômeno que atinge negros e negras nas diversas classes sociais e países. 



Adriana Barbosa é presidente do Instituto Feira Preta, formada em gestão de eventos, com especialização em gestão cultural pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) da ECA – USP. Neste vídeo, com uma voz incrivelmente doce, ela fala sobre o empoderamento das mulheres negras a partir de histórias de vida de mulheres negras. 


Rosa Luz é cineasta, fotógrafa, poeta, rapper e trançadeira. Como uma mulher negra, trans, e periférica, ela é também ativista e através da arte luta contra todas as formas de opressão. Neste vídeo, com apenas 6 minutos, ela consegue falar sobre sua história de vida que se entrecruza com a história de muitas de nós. 

20. Eu Empregada Doméstica | Preta Rara | TEDxSaoPaulo

Preta Rara é graduada em história, rapper, poeta, cineasta, cantora, DJ... UFA! 
Neste vídeo, ela fala sobre sua experiência a frente da fan page Eu Empregada Doméstica. Eu já assisti a este vídeo tantas vezes que sei quase de cor! Acho a Preta super talentosa e carismática. Essa palestra é extremamente tocante e vale a pena cada minuto dele.



"O nosso legado, não é a escravidão. O nosso legado, passado de geração para geração, é o sonho da liberdade. E a gente vai mudar o mundo"
Amo este vídeo! A Didi Couto tem uma potência incrível. Ela é jornalista na TV Cultura e é uma figura que eu tive como uma referência importante quando apresentei um programa de TV. Nesta palestra, ela fala justamente sobre a representatividade. 




A Taís dispensa apresentações. Neste vídeo, ela fala sobre algo que as mães negras convivem: o medo de criar seus filhos em uma sociedade racista. O vídeo é muito bacana porque nos traz a dimensão de que o racismo afeta negros e negras independente da classe social. 



Stephanie é arquiteta, ativista feminista negra e colunista da Revista Marie Claire. Neste vídeo, ela se emociona ao falar sobre o papel de cura que a escrita teve em sua vida. Através da escrita ela se conecta com mulheres negras e com sua subjetividade. 

24. Desafiando diversas formas de opressão | Maíra Azevedo | TEDxRioVermelho

Maíra é a jornalista baiana, conhecida como Tia Má. Amo essa palestra! Além de amar a Maíra, como uma excelente comunicadora, como uma "brother" que me enche de orgulho, amo essa palestra porque ela também fala sobre meritocracia. Durante este vídeo, eu me emociono diversas vezes. A Maíra fala sobre nossas dores de forma muito certeira e por isso nos dá muita força.


Yasmin Thayná é cineasta e fez o maior barulho com seu filme "Kbela. Um filme sobre Ser mulher e tornar-se negra”. Na palestra ela fala sobre a experiência de fazer o filme com tão pouco dinheiro e a partir de uma narrativa marginalizada. Também lançou a plataforma Afroflix que é é uma plataforma que disponibiliza conteúdos audiovisuais online com uma condição: aqui no AFROFLIX você encontra produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra. 

BÔNUS
Abaixo, ainda trago duas palestras que gosto muito. Ambas são em inglês e não contam com legenda em português. Mas, vale a pena tentar treinar o inglês porque são palestras muito legais!


Melz é recém-formada em Filosofia e Política pela Universidade de Leeds (uma das maiores universidades do Reino Unido). Ela é a pioneira da campanha "Por que meu currículo é branco?", no campus. Melissa também é uma artista, mais especialmente uma rapper. Para quem curte o debate sobre a educação como uma forma de resistência e combate à opressão, essa palestra é imperdível.



Brittany Jonee é uma jovem bahamense que vem sendo destaque nas artes e ciências no seu país, despontando como uma líder valiosa no campus. Além disso, Brittany é uma talentosa violonista. Nesta palestra, ela fala sobre como o violento processo de colonização determinou a vida nas Bahamas, apagando línguas, práticas e valores culturais ancestrais. 


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Termino minha lista por aqui, ou não termino nunca mais porque há muito material incrível produzido por mulheres negras na internet!
Tenho certeza que você também tem uma palestra incrível que não está nesta lista e que você gostaria de indicar. 

Comente aqui no blog aquela palestra que você acha imperdível!

Rosa Parks: "eu estava cansada de ceder" (30/31)



No penúltimo dia do #julhodaspretas - sim, já estou ficando triste e arrasada - vamos falar de uma preta que se tornou símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América: Rosa Parks. Ela fica famosa, quando, em 1º de dezembro de 1955, recusa-se a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco. Ela se torna o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery e posteriormente viria a marcar o início da luta antissegregacionista. Conhecer sua história é entender o que estava por trás deste ato que foi um marco histórico.

Rosa Parks nasceu Rosa Louise McCauley em Tuskegee, Alabama, em 4 de fevereiro de 1913, filha de uma professora e um carpinteiro. Ela foi uma criança com a saúde frágil, tinha frequentes crises de amigdalite. Quando seus pais se separaram, ela se mudou com a mãe para Pine Level, logo abaixo da capital do estado, Montgomery. Ela cresceu em uma fazenda com seus avós maternos, mãe e irmão mais novo, Sylvester. Todos eles eram membros da Igreja Episcopal Metodista Africana (AME), instituição negra independente fundada por negros livres na Filadélfia, no início do século XIX

Rosa frequentou escolas rurais até a idade de onze, depois foi para o Alabama State Teachers College para negros, mas teve que abandonar os estudos cuidar de sua avó e depois de sua mãe, depois que eles ficaram doentes. 

Em torno da virada do século 20, os antigos estados confederados adotaram novas constituições e leis eleitorais que efetivamente excluíam os eleitores negros e, no Alabama, muitos eleitores brancos pobres também. As empresas de ônibus e trem aplicavam políticas de assentos com seções separadas para negros e brancos. O transporte de ônibus escolar não estava disponível em qualquer forma para escolares negros no Sul, e a educação negra sempre estava subestimada.


Repetidamente intimidada por crianças brancas em seu bairro, Parks muitas vezes teve que lutar fisicamente com elas. Ela disse mais tarde que "até onde eu me lembro, nunca poderia pensar em aceitar abusos físicos sem alguma forma de retaliação". 

Em 1932, Rosa se casou com Raymond Parks, um barbeiro de Montgomery. Ele era membro de uma associação de negros que na época estava coletando dinheiro para apoiar a defesa dos Scottsboro Boys - um grupo de homens negros acusados ​​falsamente de estuprar duas mulheres brancas. Rosa ocupou inúmeros empregos, que vão desde trabalhadora doméstico até assistente de hospital. Por insistência do marido, ela terminou seus estudos de ensino médio em 1933, época em que menos de 7% dos afro-americanos tinham um diploma do ensino médio.

Em dezembro de 1943, Parks tornou-se ativa no Movimento dos Direitos Civis, ingressou no grupo em que o marido já militava. Em 1944, na sua qualidade de secretária do grupo, ela investigou o estupro coletivo de Recy Taylor, uma negra de Abbeville, Alabama. Rosa e outros ativistas dos direitos civis organizaram o "Comitê para a Justiça Equitativa para a Sra. Recy Taylor", lançando o que o Defensor de Chicago chamou de "a campanha mais forte para a igualdade de justiça a ser vista em uma década". Embora nunca tenha sido membro do Partido Comunista, ela participou de encontros com o marido.


Em agosto de 1955, o adolescente negro Emmett Till foi brutalmente assassinado depois de ter paquerado uma mulher branca enquanto visitava parentes no Mississippi. Em 27 de novembro de 1955, quatro dias antes de subir no ônibus, Rosa Parks participou de uma reunião de massa na Igreja Batista Dexter Avenue em Montgomery que abordou este caso, bem como os recentes assassinatos dos ativistas George W. Lee e Lamar Smith. O apresentador principal foi T. R. M. Howard, um líder negro de direitos civis do Mississippi que liderou o Conselho Regional de Liderança Negra. Howard trouxe notícias da recente absolvição dos dois homens que assassinaram Till. Parks estava profundamente triste e irritada com a notícia, particularmente porque o caso de Till ganhara muito mais atenção do que qualquer dos casos em que ela e sua organização haviam trabalhado.

O sistema de segregação de lugares no transporte já vinha sendo alvo de protestos dos negros, mas nada havia mudado. Em Montgomery, as primeiras quatro filas de assentos em cada ônibus eram reservadas para brancos. Pessoas negras deveriam sentar-se na parte traseira dos ônibus, local onde haviam poucos lugares, uma vez que 75% de quem utilizava os ônibus eram pessoas negras. Assim, elas podiam sentar-se nas fileiras do meio até a seção branca preenchida. Se mais pessoas brancas precisassem de assentos, pessoas negras deveriam ir para a parte traseira, ou ficar em pé ou, se não houvesse espaço, sair do ônibus! Ao entrar em um ônibus, se já houvessem pessoas pessoas brancas sentadas na frente, as pessoas negras deveriam entrar pela frente, pagar a tarifa e depois desembarcar e voltar a entrar pela porta de trás.

Um dia em 1943, Parks embarcou num ônibus e pagou a tarifa. Ela então se mudou para o assento, mas o motorista James F. Blake disse-lhe para seguir as regras da cidade e entrar novamente no ônibus da porta dos fundos. Quando Parks saiu do veículo, Blake saiu sem ela. Parks esperou o próximo ônibus, determinada a nunca mais andar com Blake. Ou seja, ela já vinha passando os mais diversos constrangimentos a anos. 

Depois de trabalhar o dia todo, Parks embarcou no ônibus da Cleveland Avenue, às 6h da quinta-feira, 1 de dezembro de 1955, no centro de Montgomery. Ela pagou sua tarifa e sentou-se em um assento vazio na primeira fila de assentos traseiros reservados para pessoas negras. Perto do meio do ônibus, ela estava bem longe dos assentos reservados para passageiros brancos. Inicialmente, ela não percebeu que o motorista de ônibus era o mesmo homem, James F. Blake, que a deixara na chuva em 1943. Enquanto o ônibus viajava ao longo de sua rota regular, todos os assentos brancos no ônibus foram preenchidos. Foi quando o motorista notou que dois ou três passageiros brancos estavam de pé, exigiu que quatro passageiros negros cedessem seus lugares para os passageiros brancos. Três passageiros negros se levantaram e Rosa Parks se recusou a fazê-lo. Em sua biografia ela declara que pensou em Emmett Till quando se recusou a levantar. Blake disse: "Por que você não se levanta?" Parks respondeu: "Eu não acho que eu deveria ter que me levantar". Blake chamou a polícia para prender Parks. Ela foi presa! Parks foi acusada de uma violação do Capítulo 6, Seção 11, Lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar de tecnicamente, ela não tivesse tomado um assento branco. 

Em sua autobiografia, My Story, ela disse:

"As pessoas sempre dizem que não desisti do meu assento porque estava cansada, mas isso não é verdade. Eu não estava cansada fisicamente, nem mais cansada do que costumava estar no final de um dia útil. Eu não era velha, embora algumas pessoas tenham uma imagem de mim como sendo idosa então. Eu tinha quarenta e dois anos. Não, só tinha um cansaço, eu estava cansado de ceder."

A comunidade decide por um boicote aos ônibus de Montgomery. O Conselho Político das Mulheres foi o primeiro grupo a endossar oficialmente o boicote. No domingo, 4 de dezembro de 1955, os planos para o boicote aos ônibus de Montgomery foram anunciados em igrejas negras na área, e um artigo de primeira página no Montgomery Advertiser ajudou a difundir a palavra. Em uma reunião da igreja naquela noite, os participantes concordaram por unanimidade para continuar o boicote por mudanças no transporte.

No dia seguinte, Parks foi julgada acusada de conduta desordenada e violando uma ordenança local. O julgamento durou 30 minutos. Depois de ser considerado culpada, pagar multa e os custos judiciais, Parks apelou a sua condenação e impugnou formalmente a legalidade da segregação racial. O boicote no dia do julgamento de Parks foi vitorioso, mesmo com chuva, a comunidade negra aderiu fortemente ao movimento. A partir de então, a população negra cria o "Montgomery Improvement Association" (MIA) para continuar a organização do boicote. Seus membros são eleitos e como seu presidente foi eleito o jovem Martin Luther King Jr.

O boicote de ônibus em Montgomery continuou por 381 dias. Dezenas de ônibus públicos ficaram ociosos há meses, prejudicando gravemente as finanças da companhia de trânsito, até que a cidade revogou sua lei que exigia segregação em ônibus públicos após a decisão do Supremo dos EUA em Browder v. Gayle de que era inconstitucional. 

A prisão de Parks foi o catalisador da organização dos negros, primeiro em Montgomery e depois no restante do país. Após ser solta, ela passa a ser ameaçada de morte, perde o emprego e se vê forçada a sair da cidade. Começa a viver em Hamptom, mas continua militando a favor dos direitos civis por muitos anos. Ela ganha diversos prêmios e homenagens por sua atuação a favor dos direitos civis.

Parks residiu em Detroit até morrer de causas naturais aos 92 anos em 24 de outubro de 2005, em seu apartamento no lado leste da cidade. Ela e seu marido nunca tiveram filhos. Seu enterro e funeral tiveram as honrarias de um chefe de estado. No vídeo abaixo, podemos ver o discurso do - ainda senador - Barack Obama prestando homenagens à Rosa Parks em seu funeral.


VIVA ROSA PARKS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!

Magali Mendes: "eu só sei trabalhar pelo coletivo" (29/31)

A proposta do #julhodaspretas da Central das Divas é dar visibilidade às mulheres pretas. Mostrar que temos história própria. Que nossa luta tem sido feita por mulheres de verdade, de carne e osso. Precisamos conhecer seus rostos, nome e sobrenome. Assim, temos conseguido mostrar mulheres que já tem algum registro biográfico na internet, mas achamos que é possível e necessário fazer novos registros. Dar visibilidade à mais mulheres negras que tem lutado de forma anonima, mas que têm mudado a realidade de tantas outras mulheres negras e suas comunidades. Vou apresentar e registrar, pela primeira vez na internet, a biografia de algumas mulheres que admiro e que tem contribuído para a luta de mulheres negras. 

Uma destas mulheres é a ativista, do movimento negro e sindical, Magali Mendes que vive a muitos anos em Campinas, no interior de São Paulo, e é a 29ª mulher negra homenageada pela Central das Divas no nosso #julhodaspretas. Para registrar a biografia de Magali, pude conversar com ela comendo uma pizza e foi tão simples que não dava nem para acreditar que alguém tão fascinante e importante para a luta das mulheres negras estava ali ao meu alcance. Cada história que ela conta, você se envolve tanto que nem se lembra mais do que perguntou no inicio. Na conversa, eu aprendi tanto, sobre tanta coisa que foi até difícil ir para casa depois. Conversa de preta, das boas! Sorte a minha.


Magali Mendes nasceu em Jundiaí, uma cidade vizinha a Campinas, em 10/01/1963. Magali é a mais nova de 5 filhos. Filha de um metalúrgico e de uma dona de casa, formou-se em Técnica Agrícola e gostaria de continuar seus estudos em Agronomia. Mas, sua história é semelhante às histórias de tantas outras mulheres negras. Magali não continuou seus estudos em Agronomia, pois sua família não tinha condições de bancar mais anos de estudos. Portanto, ela precisava trabalhar.


Concursada na UNICAMP, Magali se muda para a cidade de Campinas onde fica por 35 anos. Sua carreira como funcionária da UNICAMP começa no cargo de jardineira. Esta era uma função exercida majoritariamente exercida por homens e foi um espaço de opressão para as mulheres que dividiam com eles as tarefas. Magali relata que sofreu diversas pressões machistas enquanto trabalhava neste setor. É quando ela se aproxima do Sindicato dos Trabalhadores da UNICAMP, se filiando e participando ativamente das atividades do Sindicato, tendo participado da gestão do ano.... Magali se aposenta como funcionária da UNICAMP, tenso passado pelo Instituto de Ciências Humanas e CIS Guanabara.

Durante o período em que trabalhou na UNICAMP, Magali cursou história na PUC. Ao ser questionada sobre os motivos que a levaram buscar uma formação superior, Magali diz que fazer um curso superior era importante, mas não foi um sonho. Ela acredita que temos que garantir possibilidades de que o curso superior seja uma escolha e não a única opção de garantia de vida para os jovens, especialmente negros e negras. Ela acredita que existem outras possibilidades para além da formação superior, mas que elas só poderão ser aproveitadas quando forem uma escolha possível para quem quiser e não um privilégio.

Apesar de sua atuação no sindicalismo, a principal atuação de Magali foi em defesa dos direitos de negros e negras, tendo participado de importantes atividades dos movimentos negros, especialmente o FECONEZU, uma organização quilombola. Magali atua no FECONEZU desde os 17 anos de idade, quando teve a oportunidade de ajudar a organizar um encontro da entidade na região de Jundiaí. A partir do encontro, ela e outros jovens fundaram o Grupo Afrocultural de Jundiaí.

Na década de 1990, Magali participa da Comissão de Mulheres Negras de Campinas e da fundação da Casa Laudelina na mesma cidade. A intervenção de Magali na defesa dos direitos das mulheres negras a levou até o II Encontro Afro Caribenho de Mulheres, em Costa Rica (2011). Este encontro aconteceu com o objetivo de ampliar as pautas do I Encontro e incluir as mulheres afrocaribenhas nelas. No ano de 2015, Magali Mendes participou da fundação da Frente de Mulheres Negras de Campinas que impulsionou a caravana de Mulheres Negras a Marcha de Mulheres Negras, em Brasília.

Quando perguntada se é feminista Magali confirma sem pensar: SOU FEMINISTA! Ela diz que desde sempre viveu o feminismo, ainda que não tratasse por este nome as relações que sempre foram estabelecidas em sua casa e bairro e que orientaram sua vida. É a partir destes posicionamentos feministas que Magali constrói o que ela identifica como sua principal atuação: as PROMOTORAS LEGAIS POPULARES, onde ela atua desde 1996. Ela identifica que através de sua atuação nas PLP's ela pode se aproximar de verdade dos problemas que as mulheres periféricas enfrentam em seu cotidiano, podendo apoiá-las e instrumentalizá-las para que possam, elas mesmas, ser agentes de transformações em suas casas, comunidades e na sociedade.

Para Magali Mendes, a principal tarefa dos movimentos de mulheres negras no momento atual é renovar o movimento, oxigenar, trazer mais mulheres para a luta. Para ela, temos sido vitoriosas. Ver os olhos de  Magali brilhando de esperança ao falar da nova geração de mulheres que tem abraçado a luta das mulheres negras me encheu de amor e vontade de continuar. Sim, Magali Mendes, você é uma Griô.

VIVA MAGALI MENDES!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!


Agradecimento especial a Daniele Diniz, que contribuiu lindamente para este post!


Chimamanda Ngozi Adichie e o perigo da história única (28/31)

Ela já era mundialmente reconhecida como um dos maiores talentos literários de sua geração e acabou se popularizando quando Beyoncé escolheu um trecho de sua palestra “Sejamos Todos Feministas” (que foi transformada também em livro) para usar na música e no clipe “Flawless”, de seu álbum homônimo de 2013. Estamos falando de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela é a 28ª preta que homenageamos no #julhodaspretas na Central das Divas. Ela não é nascida no continente americano, mas tem influenciado muito o mundo ocidental, por isso, resolvemos falar dela no #julhodaspretas.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 15 de setembro de 1977. Ao todo, ela tem 5 irmãos e é filha de um professor universitário e uma funcionária da Universidade da Nigéria, que por sinal foi a primeira secretária do sexo feminino da universidade.

Chimamanda começou seus estudos na Universidade da Nigéria, na área de estudou medicina e farmácia, por um ano e meio. Por lá, ela editou The Compass, uma revista feita por estudantes de medicina da universidade católica. Aos 19 anos, a escritora mudou-se para os Estados Unidos para estudar. Foi quando estudou comunicação e ciência política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, tendo estudado depois em Eastern Connecticut State University para viver mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Em 2003, ela completou um mestrado em escrita criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. 


A carreira de Chimamanda é recheada de prêmios desde seus primeiros escritos. Sua primeira publicação foi uma coletânea de poemas em 1997 (Decisions) e, logo depois, uma peça (For Love of Biafra) em 1998. Já em 2002, foi indicada para o Prémio Caine com o conto "You in America".

Em 2003, sua história "That Harmattan Morning" ganhou o prêmio O. Henry para "The American Embassy". Ela também ganhou o David T. Wong Prêmio Internacional de Contos 2002/2003 (PEN Centro Award) e uma Beyond Margins Award por seu conto "A metade de um sol amarelo" de 2007.

Seu primeiro romance, Purple Hibiscus (2003) foi aclamado pela crítica e recebeu o Prêmio Commonwealth Writers como Melhor Primeiro Livro (2005).

Seu segundo romance, Half off a Yellow Sun, nomeado em homenagem a bandeira da nação de Biafra, se passa antes e durante a Guerra de Biafra. Esta obra também foi premiada com o Orange Prize de 2007 para Ficção. Half off a Yellow Sun foi adaptado para um filme com o mesmo título, dirigido por Biyi Bandele, estrelado pelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor e por Thandie Newton, lançado em 2014. Seu terceiro livro, The Thing Around Your Neck (2009), é uma coleção de histórias curtas.

Em 2010, ela entrou na lista dos 20 autores de ficção mais influentes com menos de 40 anos."Ceiling", foi incluída na edição do The Best American Short Stories 2011.Em 2013 ela publicou seu terceiro romance, "Americanah" que foi selecionado pelo New York Times como um dos 10 Melhores Livros de 2013.

Além do sucesso em livros, as palestras de Chimamanda correram o mundo na internet. "O perigo das histórias únicas" foi um sucesso no TED em 2009. Você pode assistir este vídeo legendado abaixo:




Mas, o maior sucesso da autora, transformado em livro, foi a palestra realizada "Sejamos todos feministas" no TEDxEuston, realizada em 2012. Este discurso é aquele que incorporado, em 2013, na música "Flawless" da cantora americana Beyoncé. No discurso, ela compartilhou sua experiência de ser uma feminista africana, e sua visão sobre construção de gênero e sexualidade.

″Eu estou com raiva. A construção de gênero do modo como funciona atualmente é uma grave injustiça. Todos nós deveríamos estar com raiva. Esse sentimento, a raiva, é importante historicamente para as transformações sociais positivas, mas além de estar com raiva eu também estou esperançosa porque eu acredito profundamente na habilidade dos humanos de se reinventarem e se tornarem melhores".

O vídeo está disponível abaixo e vale a pena assistir mais uma vez!


Muito orgulho de uma mulher tão jovem e negra que tem ditado muita coisa importante no movimento de luta das mulheres. São as mulheres negras mostrando que não há uma história única.


VIVA CHIMAMANDA!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!





No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Laudelina de Campos Melo: uma guerreira em defesa da classe trabalhadora (27/31)

No dia 27 dos 31 em que estamos resgatando a história das mulheres negras em comemoração ao #julhodaspretas, vamos falar de Laudelina de Campos Melo. Ela foi uma importante ativista sindical e trabalhadora doméstica que lutou incessantemente pela garantia dos direitos das empregadas domésticas no Brasil. Sabe-se que sua trajetória foi marcada pela luta contra o preconceito racial, misoginia e exploração da classe trabalhadora. É importante reconhecer sua luta em função da regulamentação do emprego doméstico como fundadora do Sindicato das empregadas domésticas.

Laudelina nasceu em 12 de outubro de 1904, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Já aos sete anos de idade começou a trabalhar como empregada doméstica. Com apenas 16 anos iniciou sua atuação em organizações de cunho cultural, sendo eleita presidenta do Clube 13 de Maio, que era uma agremiação que promovia atividades recreativas e políticas entre os negros de sua cidade.



Laudelina mudou-se para São Paulo aos 18 anos, onde se casou, mudando-se para Santos em 1924. Participou junto com seu marido da agremiação Saudade de Campinas, grupo cultural negro de Santos. Depois de se separar do marido (1938), e já com seus dois filhos, ela começa a atuar de forma mais incisiva em movimentos populares. Em 1936, ela se filia ao Partido Comunista Brasileiro, em 1936. Ainda em 1936, fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do país, em Campinas. Fechada durante o Estado Novo, e voltando a funcionar em 1946. Ela teve uma importante atuação na na fundação da Frente Negra Brasileira, militando na maior associação da história do movimento negro, que chegou a ter 30 mil filiados ao longo da década de 1930.

Em 1955, Laudelina mudou-se para Campinas onde ela participa de atividades do movimento negro além de atividades culturais e sociais, especialmente com o Teatro Experimental do Negro (TEN). Este grupo tinha uma atuação no sentido de fortalecer a autoestima e a confiança da juventude negra, através da formação de grupos de teatro e dança. Criou uma escola de música e de balé na cidade. Laudelina trabalhou como empregada doméstica até 1954, quando abriu seu próprio negócio, uma pensão, e passou a vender também salgados nos dois campos de futebol da cidade (Guarani e Ponte Preta). A partir de então, ela se dedicou integralmente à militância sindical e cultural, inclusive promovendo, em 1957, um baile de debutantes (Baile Pérola Negra) para jovens negras, no Teatro Municipal de Campinas.


Fundou, com o apoio do Sindicato da Construção Civil do município de Campinas, o sindicato/associação das domésticas em Campinas. À frente da associação, apoiou dois tipos de ações: um voltado para alfabetização, pois considerava que seria o primeiro passo para conscientização e entendimento da legislação trabalhista e consequentemente reivindicação dos direitos da classe; e atividades que tinham como objetivo estimular a solidariedade entre as trabalhadoras.

Laudelina ajudou na fundação de outras associações da categoria como a do Rio de Janeiro e o de São Paulo. A militância sindical não a fez deixar de lado as demandas sociais, sempre participando dos movimentos negros e feministas. Mesmo durante a ditadura civil militar (1964-1985), ela não deixa de atuar nos movimentos sociais, passando a atuar no interior da igreja progressista, nas comunidades eclesiais de base. Entre 1968 e 1979, as atividades da associação de Campinas ficaram paralisadas. Mesmo assim, seguiu em defesa das domésticas e virou uma referência nacional na batalha pela regulamentação dos direitos das trabalhadoras domésticas. A atuação de Laudelina foi fundamental na década de 1970 para a categoria conquistar o direito à Carteira de Trabalho e à Previdência Social. Em 1982, ela auxiliou a reestruturação da associação de Campinas, possibilitando a transformação da associação em sindicato, em 20 de novembro de 1988.

Laudelina faleceu em 12 de maio de 1991 em Campinas, deixando sua casa para o sindicato de Campinas. 

Segundo a Professora Dr.ª Elisabete Aparecida Pinto, no livro “ETNICIDADE, GÊNERO E EDUCAÇÃO: Trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello”, Laudelina se reivindicava feminista por sua atuação e posicionamentos junto às domésticas. Muito orgulho da existência de uma mulher como Laudelina.

VIVA LAUDELINA DE CAMPOS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!


No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Ubuntu: somos muitas, somos únicas! Viva a mulher negra latino americano caribenha!

Depois de quase 30 dias lendo e contando a história de mulheres negras nas Américas, consigo entender os motivos que levam à invisibilidade destas mulheres: a necessidade de perpetuar as estruturas racistas.

Se cada criança negra pudesse sentir cada sentimento que nos toma quando reconstruímos a história de mulheres negras, certamente nosso poder seria ainda maior. Se apropriar da história de quem nos precedeu nos enche de coragem, eleva auto estima porque é como se apropriar da sua história também. Vemos que nosso povo é lutador e que temos muita luta para honrar. Podemos ser filósofas, bailarinas, poetas, advogadas, líderes de partidos, professoras e o que mais nossa luta conseguir alcançar. Apesar da diversidade entre as mulheres pretas a gente sabe que a história de cada uma delas é também a história de todas nós, porque o povo negro construiu sua existência coletivamente.


Me surpreendi com detalhes importantes da vida de cada uma dessas pretas. Foi revelador e fortalecedor saber um pouco mais das mulheres que me antecederam. 

No dia 25, resolvi que gostaria de falar sobre meus sentimentos ao celebrar cada uma destas mulheres. Foram sentimentos que me tomaram e que, muitas vezes,eu não consegui expressar no texto, mas que fica aqui mais uma vez a tentativa de humanizar e tornar públicas estas histórias. 

Quem não acompanhou as postagens, seguem alguns links.
  • Foi dolorido descobrir que Billy Holliday teve sua vida arrasada por diversos homens;
  • Foi empoderador descobrir que Rita Ribera foi a primeira mulher a votar nas Américas;
  • Foi encorajador saber em que condições Sojouner Truth fez o famoso discurso "E eu não sou uma mulher?";
  • Foi transformador saber que Lélia Gonzalez era uma acadêmica mas nunca saiu das trincheiras de luta dos movimentos sociais;
  • Foi fortalecedor saber a história por trás da famosa foto de Gloria Richardson;
  • Foi emocionante saber que alguns dos bairros mais populosos de Salvador nasceram de um Quilombo liderado por Zeferina;
  • Foi emocionante lembrar da coragem de Assata Shakur, que fugiu ainda ferida para manter-se em luta.
  • Foi triste lembrar que estamos há um ano sem Luiza Bairros
  • Foi surpreendente conhecer a importância de Claudia Jones na luta contra o capitalismo. É incrível como sua contribuição é invisibilizada neste debate.
  • Foi encantador ver a leveza que Gloria Rolando consegue retratar as mulheres cubanas
  • Foi revoltante saber que o machismo deturpou a luta e potência de Elza Soares
  • Foi fascinante entender a complexidade do pensamento de Kimberlé Crenshaw e da teoria da interseccionalidade.


Cada uma delas fez com que eu me orgulhasse de poder falar como mulher negra e reconstruísse o trajeto que me trouxe até aqui. Falar sobre elas é mostrar que as mulheres negras têm rosto, têm história e deram uma importante e fundamental contribuição na luta, assumindo o papel de vanguarda na transformação da sociedade.

Nos próximos dias ainda teremos mais histórias para celebrar. 
Hoje, aproveite para abraçar aquela preta que te inspira e dizer que ela faz diferença na sua vida!

VIVA A MULHER NEGRA LATINO AMERICANA


Kimberlé Crenshaw e o feminismo interseccional (24/31)

Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959) é uma advogada norte americana e uma importante referência no campo conhecido como teoria crítica racial. Ela é professora titular da Faculdade de Direito da Universidade de Califórnia e da Universidade de Columbia, onde se especializou em questões de raça e gênero. Ela é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como as identidades sociais sobrepostas ou interceptadas, particularmente as identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. 


Crenshaw nasceu em Canton, Ohio, em 1959. Ela recebeu um diploma de bacharel em estudos africanos na Universidade de Cornell, em 1981. Ela é fundadora do campo da teoria crítica racial e professora de direitos civis, estudos críticos de raça e Lei constitucional. Em Columbia, ela é fundadora e diretora do Centro de Interseccionalidade e Estudos de Política Social, criada em 2011. Em 1996, ela co-fundou e se tornou diretora executiva do centro de pesquisa sem fins lucrativos e centro de informações, The African American Policy Forum, que se concentra em questões de gênero e diversidade.

O African American Policy Forum (AAPF) é um grupo de reflexão focado em desmantelar a desigualdade estrutural e avançar e expandir a justiça racial, a igualdade de gênero e a indivisibilidade de todos os direitos humanos, tanto em Estados Unidos como internacionalmente. Em 2001,  Crenshaw escreveu o documento de referência sobre Raça e Discriminação de Gênero para a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Racismo. 

Mas, Kimberlé Crenshaw é conhecida principalmente por introduzir a teoria da interseccionalidade na teoria feminista na década de 1980. Sabe-se que o conceito de interseccionalidade não é novo, mas ela foi formalmente reconhecida a partir da sistematização de Crenshaw. Sua inspiração para a teoria começou enquanto ela ainda estava na faculdade e ela percebeu que as relações de gênero e raça estavam extremamente frágeis. 

Entre as principais publicações de Crenshaw temos "A Intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero" que você encontra neste link. Além deste texto, ela publicou trabalhos sobre direitos civis, teoria jurídica feminista negra e racial, racismo e lei, dando uma importante contribuição ao debate feminista no mundo.

VIVA KIMBERLÉ CRENSHAW!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Elza Soares: a mulher do fim do mundo (23/31)


Continuamos nossas homenagens às pretas que nos inspiram no nosso #julhodaspretas e vamos descobrindo tanto detalhe da vida dessas maravilhosas que até emociona. No dia 23 do #julhodaspretas, vamos homenagear a cantora Elza Soares. Uma história muito sofrida está por trás dessa voz poderosa.

Elza da Conceição Soares é o nome de nascença da diva. Ela é carioca nascida em 1930. Teve uma infância muito pobre e aos treze anos de idade seu pai a obrigou a parar de estudar. Acabou se casando aos 14 anos e tendo seu primeiro filho na mesma idade. Em sua primeira apresentação artística, foi vítima de chacota e preconceito por sua aparência. No programa de Ary Barroso na Rádio Tupi, onde fez sua primeira apresentação ao vivo no auditório da emissora, o apresentador pergunta ironicamente: "De que planeta você veio?", ao que Elza respondeu: "Vim do mesmo planeta que o senhor". "E posso saber de que planeta eu sou?". "Do Planeta Fome". Ainda assim, Elza se destacou e recebeu as melhores notas.


Aos quinze anos de idade outro filho seu faleceu. Ela passou a trabalhar como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão para sustentar a família enquanto o marido se recuperava de tuberculose. Aos 21 anos e 5 filhos, Elza ficou viúva. Começou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica, profissões que exerceu por muitos anos. 

Aos 32 anos, com uma carreira consolidada conhece o jogador de futebol Garrincha. Em inicio de carreira, foi vítima de machismo. O fato de ele ser desquitado e ela com 5 filhos, geraram ataques da sociedade contra ela. Elza era xingada, ameaçada de morte, sua casa era alvejada por ovos e tomates. Ela era acusada de ser pivô do fim do casamento de Garrincha. Elza e Garrincha foram casados por 16 anos, de 1968 a 1982. Foi um casamento conturbado pelo ciúme e alcoolismo de Garrincha. Durante o tempo em que estiveram juntos, ela rodava os bares pedindo para ninguém dar bebida alcoólica ao marido. 

Mesmo com tantas histórias difíceis, Elza constrói uma carreira brilhante. Nos anos 70, Elza realizou uma turnê pelos Estados Unidos e Europa. Em 2000, foi premiada como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres.

O álbum Do Cóccix até o Pescoço garantiu-lhe uma indicação ao Grammy, em 2002. Em 2007, nos Jogos Pan-americanos do Brasil, Elza interpretou o Hino Nacional Brasileiro, no início da cerimônia de abertura do evento, no Maracanã. No mesmo ano, lançou o álbum Beba-me, onde gravou as músicas que marcaram sua carreira.

Em 2014, estreia o show A Voz e a Máquina, estando no palco apenas pelos DJs Ricardo Muralha, Bruno Queiroz e Guilherme Marques. No ano de 2015, Elza Soares lançou o seu disco A Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. Este ábum é premiado diversas vezes. Em 2015, vence o prêmio de melhor álbum no Troféu APCA. Em 2016, ganha como melhor álbum o Prêmio da Música Brasileira, o Prêmio Multishow de Música Brasileira e o Grammy Latino. Ela venceu também como melhor música - "Maria da Vila Matilde" - os mesmos prêmios. 

Aos 87 anos, apesar de já ter sua saúde debilitada, Elza Soares mostra que ainda tem muito a contribuir com a arte. 



VIVA ELZA SOARES

VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Patricia Hill Collins: a mulher negra e feminismo (22/31)

Já estamos no 22º dia dos 31 dias do #julhodaspretas na Central das Divas. No dia de hoje, vamos falar da professora Patricia Hill Collins.

Collins nasceu em 1948, na Filadélfia, Pensilvânia. Collins estudou em escolas públicas da cidade que nasceu. Se formou em 1969 em sociologia na Universidade de Brandeis. Ela obteve o título de mestre na Universidade de Harvard, em 1970. De 1970 a 1976, ela foi professora de educação na Faculdade Comunitária St. Joseph, em Roxbury, Boston. Ela se tornou a diretora do Centro Africana na Universidade de Tufts, onde ficou de 1976 a 1980. 


Seus estudos de doutorado em sociologia foram realizados em Brandeis, em 1984. Ao obter o título, ela trabalhou como professora assistente na Universidade de Cincinnati no início em 1982.

Em 1990, Collins publicou seu primeiro livro, Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment. Uma décima edição, revista, foi publicada em 2000 e, posteriormente, traduzida para coreano, em 2009. Atualmente, Collins ensina Sociologia da Universidade de Maryland, College Park.

Em 1990, Collins publicou Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment, onde articula leituras de trabalhos do trabalho de Angela Davis, Alice Walker e Audre Lorde. De sua análise é possível inferir que as opressões de raça, classe, gênero, sexualidade e nação se interrelacionam, construindo mutuamente sistemas de poder. Collins utilizou o termo "interseccionalidade", originalmente cunhado por Kimberlé Crenshaw, para se referir a essa sobreposição simultânea de múltiplas formas de opressão.Também pode-se concluir que as experiências específicas das mulheres negras com a interseção de sistemas de opressão fornecem uma janela para os mesmos processos para outros indivíduos e grupos sociais.

O livro seguinte de Collins ganhou o Book Award da Associação Americana de Sociologia. Black Sexual Politics: African Americans, Gender, and the New Racism defende que o racismo e a heteronormatividade estão interligadas e que ideais de beleza atuam para oprimir os afro-americanos. 

Em 2006, ela publicou From Black Power to Hip Hop: Racism, Nationalism, and Feminism, onde examinou a relação entre nacionalismo negro, o feminismo e o hip-hop. Patricia deu uma enorme contribuição teórica para a compreensão do sistema de opressão que sofre a mulher negra.

VIVA PATRICIA HILL COLLINS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!