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20 LIVROS INCRÍVEIS DE MULHERES NEGRAS PARA VOCÊ LER EM 2020



Já estamos terminando o mês de janeiro e como andam as metas para 2020?

Uma das principais metas que a gente costuma traçar é ligada ao aumento de nosso patrimônio cultural: viagens, cursos, leituras.

Para te ajudar com isso, o primeiro post de 2020 do Blog da Central das Divas traz uma lista de sugestões de literatura produzida por mulheres negras em português. São diversos gêneros e não chegam nem aos pés da vasta produção que temos disponível. O critério aqui, além da autoria de mulheres negras, foi apenas gosto pessoal. São livros que amo, já li ou que estão na minha lista para serem lidos em 2020. Não sou crítica literária, mas sou uma leitora voraz e sei o quanto os livros que li mudaram os rumos do que eu penso e faço.

São 20 obras incríveis e que muitas vezes são colocadas em segundo plano diante do racismo e machismo que permeiam o mercado literário no Brasil.


1. O homem azul do deserto (Cidinha da Silva)

Esse livro de crônicas de Cidinha é o 12° de sua carreira e me faz perguntar novamente: como a Cidinha da Silva não é conhecida do grande público? Nos textos desse livro, Cidinha apresenta temas contemporâneos, acontecimentos históricos recentes (como fake news, a morte de Winnie Mandela e Mariele Franco) sem abandonar temas marcantes de sua literatura, como machismo e racismo.

Cheguei a esse livro através da resenha da Bianca Gonçalves, disponível nesse link, e não pude parar de ler o livro até acabar. 

2. Escritos de uma vida, Sueli Carneiro

Esse livro é imperdível por reunir uma série de artigos publicados pela filósofa, ativista e fundadora do Geledés — Instituto da Mulher Negra. Além do pensamento de Sueli Carneiro, o livro ainda conta com prefácio de Conceição Evaristo e apresentação de Djamila Ribeiro. Os textos publicados são fundamentais para quem  quer pensar sobre estratégias de resistência considerando a luta das mulheres negras e, portanto, o papel do feminismo negro.

É importante falar que esse livro é o primeiro de um selo editorial, organizado por Djamila Ribeiro, que leva o nome de Sueli Carneiro. Uma homenagem mais do que justa.

3. Onde estaes felicidade (Carolina Maria de Jesus)

Carolina Maria de Jesus é conhecida principalmente por Quarto de Despejo - Diário de uma favelada. A autora, descoberta por um jornalista, era moradora da antiga favela do Canindé, zona norte de São Paulo, trabalhava como catadora e registrava seu cotidiano em páginas amareladas encontradas no lixo. Mas, Carolina tem diversas outras obras publicadas, entre elas algumas póstumas, como o Onde Estaes Felicidade. 

O livro publicado pela Me Parió Revolução, em 2014, tem dois contos de Carolina Maria de Jesus e mais 5 textos que dialogam com a obra e o legado da autora. 


É uma obra "que mistura ficção, história e um toque de fantasia, onde são narrados dez contos sobre a guerreira quilombola Dandara dos Palmares, companheira de Zumbi dos Palmares". Os contos se inspiram em fatos reais da história do Brasil, misturando romance, suspense, aventura e mistério. A autora é a cearense Jarid Arraes que também já produziu “Redemoinho em dia quente“, “Um buraco com meu nome“, “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis“.

As ilustrações de "As lendas de Dandara" são de Aline Valek 


5. Um defeito de cor (Ana Maria Gonçalves)

O premiado "Um defeito de cor" é um romance publicado pela primeira vez em 2006 pela mineira Ana Maria Gonçalves e é fruto de uma vasta pesquisa acerca da sociedade brasileira escravista do século XIX.

O livro é um romance que narra, de forma autobiográfica, a trajetória da personagem histórica Luísa Mahin. Através do romance podemos acompanhar a personagem desde seus 8 anos de idade, em Savalu, passando por momentos de tragédia tais como seu sequestro para ser escravizada no Brasil. 

O texto deve ser transformado em uma supersérie na televisão no ano de 2020 e é emocionante principalmente por trazer uma narrativa que ultrapassa a visão eurocêntrica de heroína que permeia toda nossa formação cultural. 

Ana Maria Gonçalves -(Foto Leo Pinheiro / Divulgação/ Revista Cult) 

Além desse livro, Ana Maria Gonçalves também publicou “Ao lado e à margem do que sentes por mim”

6. Olhos d´Água (Conceição Evaristo)

É com grande sensibilidade que Conceição Evaristo escreve os 15 contos desse livro que leva o nome de uma das histórias que o compõe. O conto Olhos d'Água é mostra um pouco do sofrimento de uma mãe negra e pobre e seus diversos sacrifícios para cuidar dos filhos. O texto é narrado por uma das sete filhas dessa mulher que relembra histórias da infância da própria mãe, mas admite que as lembranças se confundem com suas próprias vivências. A grande questão de sua filha era: “qual a cor dos olhos de minha mãe?”. 

Conceição Evaristo estreou na literatura em 1990, com textos publicados na série Cadernos Negros. Ela é mestra em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), além de militar ativamente no movimento negro. Em 2020, a autora fez uma participação especial em uma novela em que interpretava ela mesma sendo reverenciada por uma jovem negra que publicava seu primeiro livro. Duas fofinhas. 

A atriz Bruna Inocêncio e a escritora Conceição Evaristo na novela Bom Sucesso (2020) 

7. Kindred – Laços de Sangue (Octavia E. Butler)

Sim, mulheres negras também escrevem ficção científica! Octavia Estelle Butler ficou conhecida como “a grande dama da ficção científica”. Ela foi a primeira autora mulher e negra a ganhar, ainda nos anos 1970, notoriedade no gênero que até hoje é predominantemente masculino – e branco. 

Kindred é um romance publicado pela primeira vez em 1979 e já vendeu mais de meio milhões de cópias no mundo todo. Em 2017, Kindred foi publicado no Brasil e conta a história de Dana, uma jovem escritora negra que vive na Califórnia, nos anos 1970, e se vê súbita e inexplicavelmente transportada para uma fazenda escravista no sul dos Estados Unidos, pouco antes da Guerra de Secessão. Dana percebe que está na casa dos seus antepassados: Alice, uma escrava, e Rufus, o dono das terras. A atualidade dos problemas relacionados à escravidão é um dos pontos altos do livro. 

A escritora Octavia E. Butler, pioneira na ficção científica norte-americana 

8. Hibisco Roxo (Chimamanda Ngozi Adichie)

Chimamanda dispensa apresentações. Além de ter uma das palestras mais aclamadas na plataforma TED - que inclusive teve um trecho incluído na música Flawless, de Beyoncé, ela tem diversas publicações que são sucesso no mundo todo e trazem uma narrativa que nos apresenta um ponto de vista a partir da vivência de uma mulher negra africana. 

Hibisco Roxo é o livro de estreia de Chimamanda e é meu preferido. Nele, a adolescente "Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente."



Sejamos todos feministas tem sua edição digital distribuída gratuitamente pela editora Companhia das Letras. Você pode ler clicando aqui

9. O alegre canto da perdiz (Paulina Chiziane)

Paulina Chiziane se autodenomina uma contadora de estórias e não uma romancista, apesar de ter sido a primeira mulher moçambicana a escrever um romance: “Eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte”.

O alegre canto da perdiz é seu sexto livro e foi publicado em 2008. Suas obras já foram traduzidas na Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França e Itália.

Em O alegre canto da perdiz ela conta a história de Delfina, mulher africana. Através dela, podemos ver um pouco das consequências do colonialismo no continente africano que ainda é presente na vida de africanos e africanas. Percorrendo temas como maternidade, prostituição e estupro, Paulina também nos presenteia com mitos africanos de criação do mundo e do ser humano. É uma história rica que foge de tudo que a gente já conhece como literatura.

10. O ódio que você semeia (Angie Thomas)

O livro publicado em 2017 é enquadrado como literatura juvenil porque é uma narrativa em primeira pessoa da história de Starr que tem 16 anos e mora em um bairro de negros nos Estados Unidos. Apesar de ser uma narrativa dinâmica e divertida, fala de forma direta e firme sobre racismo, o que pode ser incrível tanto para jovens como para adultos que estão começando a se aproximar do debate sobre racismo. Por isso, o livro pode ser classificado como um YA (young adult)


O ódio que você semeia é o livro de estreia de Angie Thomas e foi inspirado no movimento Black Lives Matter (que denuncia a violência policial contra jovens negros nos Estados Unidos). O título em inglês, The Hate U Give, é um trecho de um rap sobre racismo (e forma o genial anagrama THUG – “bandido ”–, que infelizmente se perdeu na tradução). O livro ganhou adaptação cinematográfica em 2018.

11. Filhos de sangue e osso: O legado de Orïsha,(Tomy Adeiemi)


Filhos de Sangue e Osso é o primeiro livro da trilogia de fantasia baseada na cultura iorubá, o único publicado no Brasil até janeiro de 2020.

É um livro que também vem sendo enquadrado como YA e recebeu prêmios pelo mundo todo tendo ficado por 50 semanas entre os best sellers do New York Times.

A principal inspiração de Tomi Adeyemi foi a Nigéria, terra de seus pais. Com apenas 24 anos, a escritora cria Orïsha, um mundo imaginário governado por um rei que varre do mundo a magia, e com ela seus guardiões, os maji que seriam homens e mulheres que têm poderes compartilhados com seus deuses-irmãos: Oyá, Iemanjá, Xangô, Oxumaré, entre outros. São todos nomes de energias ancestrais que são conhecidas no Brasil como Orixás. Não por coincidência, a ideia para a trilogia surgiu depois de uma visita a Salvador!




Sendo um livro escrito por uma mulher negra, com protagonismo negro e que conversa com a religião africana, a autora traz conflitos atuais, como a briga majoritária entre os kosidán e os maji, que são basicamente as pessoas com pele mais clara, membros da realeza, e as pessoas com pele mais escura e praticantes da magia. Esse conflito principal aborda o racismo e a divisão de classes.

O Legado de Orïsha está sendo adaptado para o cinema. 


12. A TRILOGIA A TERRA PERDIDA: A Quinta Estação, O Portão do Obelisco e O Céu de Pedra (N. K. Jemisin)

A escritora negra norte americana N.K. Jemisin, através da publicação da Trilogia da Terra Perdida, se consolidou em 2019 a primeira pessoa, independente de gênero ou etnia, a conquistar o Hugo Awards (principal prêmio da literatura fantástica) três vezes seguidas, algo inédito nos mais de 60 anos do prêmio.

A trilogia se passa em um planeta fictício com apenas um grande continente, chamado Quietude. O local é alvo de erupções vulcânicas, terremotos e catástrofes tectônicas com uma frequência assustadora, tanto que toda a cultur,a da Quietude se desenvolveu em torno da sobrevivência. A construção desse mundo e a descrição desses costumes por Jemisin é de um detalhismo que remete à riqueza das sagas de autores como Frank Herbert (Duna) e J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis). A diferença é que Jemisin tende a conceder protagonismo em suas histórias a personagens dos mais variados tons de pele, orientações sexuais, idades e características, não se atendo apenas aos estereótipos que a literatura de gênero solidificou por décadas.

A grande questão da obra é: por que sempre organizamos nossas vidas de modo a oprimir uma parcela da população? "Para uma sociedade construída com base na exploração, não existe ameaça maior do que não restar mais ninguém para oprimir", ela escreve em certo ponto. A metáfora dos orogenes, como minorias étnicas, religiosas ou sexuais fica clara, mas o fato de a Quietude ser obrigada a renascer das cinzas a cada Quinta Estação cria uma relação de interdependência e desprezo mútuo interessante entre orogenes e quietos. A determinada altura da saga, o leitor começa a ter pistas a respeito de civilizações extintas de muitos anos antes, e percebe que, mesmo com um nível tecnológico maior no passado, a humanidade sempre se apoiou na opressão de seus semelhantes para prosperar.


13. A cor púrpura  (Alice Walker)

Alice Walker é autora de mais de 20 obras literárias entre romances, contos e poesias. Com A Cor Púrpura ela venceu o Prêmio Pulitzer em 1983 e o National Book Award. A obra foi inspiração para a obra-prima cinematográfica homônima dirigida por Steven Spielberg.

Cenas do filme "A cor púrpura" (1985) 

A cor púrpura retrata a dura vida de Celie, uma mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Pobre e praticamente analfabeta, Celie foi abusada, física e psicologicamente, desde a infância pelo padrasto e depois pelo marido. Um universo delicado, no entanto, é construído a partir das cartas que Celie escreve e das experiências de amizade e amor, sobretudo com a inesquecível Shug Avery. Apesar da dramaticidade de seu enredo, A cor púrpura se mostra muito atual e nos faz refletir sobre as relações de amor, ódio e poder, em uma sociedade ainda marcada pelas desigualdades de gêneros, etnias e classes sociais.


14. Pequeno Manual Anti Racista (Djamila Ribeiro)

Lançado em novembro de 2019 a obra trata de temas como do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. São onze capítulos em que Djamila comprova de forma sempre objetiva e direta o quão o racismo faz parte da cultura humana na atualidade. Djamila é uma filósofa brasileira que tem impactado fortemente as discussões sobre racismo e feminismo já tem 3 livros publicados.



"Mesmo que uma pessoa pudesse se afirmar como não racista (o que é difícil, ou mesmo impossível, já que se trata de uma estrutura social enraizada), isso não seria suficiente — a inação contribui para perpetuar a opressão"


15. Eu não sou uma mulher (bell hooks)


Esse é um clássico da literatura feminista mundial, de 1981, e que foi publicado em português apenas em 2019.

A partir do discurso histórico de Soujorner Truth, proferido em 1851, na Women’s Convention e que dá título ao livro, hooks discute o racismo e sexismo presentes no movimento pelos direitos civis e no feminista, desde o sufrágio até os anos 1970.

Além dessa importante obra, bell hooks publicou mais de trinta livros e numerosos artigos acadêmicos, apareceu em vários filmes e documentários, e participou de várias palestras públicas. Sua obra incide principalmente sobre a interseccionalidade de raça, capitalismo e gênero.


16. Pensamento Feminista Negro (Patricia Hill Collins)

Posso dizer que esse é um dos meus livros preferidos. É inacreditável a forma didática em que a Patricia Hill Collins consegue apresentar um panorama tão completo do feminismo negro com referências de dentro e de fora da academia. A publicação foi feita em 1990 e ainda assim é contemporâneo. Ela dialoga com as mais diversas vertentes teóricas que discutem a questão da mulher negra na sociedade. 

Pelo conteúdo e densidade dessa obra, a socióloga ficou conhecida no mundo todo, mas ela tem uma vasta produção sobre feminismo e gênero a partir da perspectiva de pessoas negras.

17. Empoderamento (Joice Berth)

Apesar de não ser um conceito novo, o termo empoderamento vem recebendo destaque nos últimos anos. Entretanto, há muita confusão em torno dele. Em um trabalho intelectual valioso, Joice Berth parte de conceitos de Paulo Freire, Vivian Baquero, Patrícia Hill Collins, bell hooks, Lélia Gonzalez, Barbara Bryant Solomon, Angela Davis, Sueli Carneiro, dentre outras, para aprofundar as reflexões sobre empoderamento.

É uma obra imprescindível principalmente pra gente evitar a banalização de um conceito fundamental na disputa dos rumos de nossa sociedade. 

18. A liberdade é uma luta constante (Angela Davis)

No livro publicado em 2018, podemos encontrar artigos, discursos e entrevistas recentes de Angela Davis realizados em diferentes países entre 2013 e 2015 e organizados pelo militante dos direitos humanos Frank Barat.

A principal contribuição dessa obra é o destaque dado por Davis à necessidade de transformação das estruturas sociais profundamente. Para tal, a autora defende a importância dos movimentos sociais de mulheres negras.

“quando as mulheres negras se movem, toda a estrutura política e social se movimenta na sociedade”

19. Memórias da plantação (Grada Kilomba)

Kilomba publicou essa obra primeiramente em inglês em 2008. Apenas em 2019 ela foi publicada no Brasil, mas dialoga muito com situações de racismo que a gente vivencia aqui também. Através de episódios do racsimo cotidiano, é que a publicação expressa a importância de combate ao racismo de uma forma interdisciplinar, que combina teoria pós-colonial, estudos da branquitude, psicanálise, estudos de gênero, feminismo negro e narrativa poética, esta é uma reflexão essencial e inovadora para as práticas descoloniais.


Grada Kilomba é uma escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa reconhecida pelo seu trabalho que tem como foco, o exame da memória, trauma, gênero, racismo e pós-colonialismo e está traduzido em várias línguas, publicado e encenado internacionalmente.

20. A nova segregação: racismo e encarceramento em massa (Michelle Alexander)

Publicada originalmente em 2010, a obra vendeu mais de 600 mil exemplares e permaneceu na lista de mais vendidos do The New York Times por mais de 150 semanas. O livro desafiou a noção de que o governo Obama assinalava o advento de uma nova era pós-racial e teve um efeito explosivo na imprensa e no debate público estadunidense, acumulando prêmios e inspirando toda uma geração de movimentos sociais antirracistas. A nova segregação ganhou o NAACP Image Award de melhor não ficção em 2011. A edição brasileira tem apresentação de Ana Luiza Pinheiro Flauzina, orelha de Alessandra Devulsky, revisão técnica e notas Silvio Luiz de Almeida. Pedro Davoglio assina a tradução. 

“O sistema de castas raciais nos EUA não foi superado, foi meramente redesenhado”, diz a jurista. Ao analisar o sistema prisional dos EUA, Alexander fornece uma das mais eloquentes exposições de como opera o racismo estrutural e institucionalizado nas sociedades ocidentais contemporâneas. Para a autora, o encarceramento em massa se organiza por meio de uma lógica abrangente e bem disfarçada de controle social racializado e funciona de maneira semelhante ao sistema ‘Jim Crow’ de segregação, abolido formalmente nos anos 1960 após o movimento por direitos civis nos Estados Unidos. Não é à toa que este país possui atualmente a maior população carcerária do mundo (com o Brasil pouco atrás, em 4º lugar, depois da China e da Rússia). 

Michelle Alexander é uma aclamada jurista na área de direitos civis, advogada e professora de direito. Nos últimos anos, Michelle Alexander ensinou em diversas universidades, incluindo a Escola de Direito de Stanford, onde foi professora associada e dirigiu as Clínicas de Direitos Civis. Em 2005, ganhou o Soros Justice Fellowship, que apoiou a escrita do livro The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness. No mesmo ano, ela aceitou uma nomeação conjunta do Instituto Kirwan para o Estudo da Raça e Etnia e do Colégio Moritz de Direito na Ohio State University. 


BÔNUS Deus Ajude Essa Criança (Toni Morrison)

Essa é uma das minhas obras preferidas de Toni Morrisson. Através da história de Bride – nascida LuAnn Bridewell – podemos ver como o racismo atinge a subjetividade de pessoas negras. Diversos personagens narram a história em primeira pessoa, o que nos aproxima ainda mais envolvido com o livro. É impressionante como Tomi Morrison consegue delinear a personalidade de cada um de forma tão detalhista e sensível.



Esse foi o último livro publicado por Morrison em vida. A autora morreu em agosto de 2019 deixando um legado de obras premiadas como O olho mais azul (1970) Amada (1987), Jazz (1992) e Paraíso (1997). Toni Morrison ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1993. Ela foi a primeira mulher negra a receber esse prêmio da literatura.

25 PALESTRAS IMPERDÍVEIS DE MULHERES NEGRAS NO TEDX

      O TED (sigla de Technology, Entertainment, Design) é uma série de conferências realizadas pelo mundo pela fundação Sapling, dos Estados Unidos, sem fins lucrativos, destinadas à disseminação de ideias – segundo as palavras da própria organização, "ideias que merecem ser disseminadas". Suas apresentações são limitadas a dezoito minutos, e os vídeos são amplamente divulgados na Internet.
       Em março de 2018, tive a oportunidade de ser uma das palestrantes do TEDx, que aconteceu em Campinas. Os organizadores entraram em contato comigo através de indicações e acharam interessante minhas contribuições como pesquisadora aliadas à minha trajetória na militância. Em conjunto, nós pensamos em uma palestra que pudesse questionar o status quo e levasse um pouco da minha trajetória para enriquecer as reflexões. O resultado foi uma palestra que abordou o "mito da meritocracia".
         Optei por questionar o que está por trás da ideologia do "quem quer consegue" que individualiza os sucessos e fracassos em uma sociedade que cria oportunidades desiguais para os diferentes grupos sociais. A partir da perspectiva da meritocracia, uma pessoa não atinge determinados objetivos por não ter se "esforçado" o suficiente. Entretanto, ao analisar os grupos que menos atingem os objetivos que socialmente são encarados como "sucesso", vemos que são os mesmos grupos que enfrentam barreiras como o racismo, machismo, homofobia e outras opressões. Seria coincidência? Acredito que não. Sem dar mais spoilers... o link do vídeo está aqui.
          Durante o processo de preparação da minha palestra, procurei assistir a outras palestras realizadas no TEDx e que dialogassem com meus interesses. Eu vi dezenas de palestras bacanas, por isso resolvi fazer uma coletânea de palestras proferidas por mulheres negras em uma playlist do YouTube. São palestras inspiradoras que me fizeram pensar muito, mas acima de tudo entender como as mulheres negras têm contribuído com um novo paradigma de sociedade. Este é o verdadeiro sentido do que diz a filósofa Angela Davis:

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

           Abaixo, você encontra um pouco da descrição de cada palestra e/ou palestrante e aqui você encontra o link da playlist completa. Se você quiser, pode ver cada vídeo em separado clicando no título de cada um.

 VEJA, ESCUTE, LEIA MULHERES NEGRAS



Começo pela minha palestra que foi realizada em Campinas, em março de 2018. Mulher nordestina, negra, candomblecista, feminista e militante.  Mestra e doutora em Educação pela UNICAMP, concluí doutorado sanduíche na Universidade de Tecnologia de Braunschweig, Alemanha. Em 2015, estive na lista das 25 mulheres negras mais influentes da internet no Brasil. 



Pesquiso sobre educação e ciência - a partir de uma perspectiva marxista, feminismo negro e estética. Também atuo como professora e afro-empreendedora através da Central das Divas.



Nataly fala da expectativa que envolve a menina negra em se tornar a "mulata", que seria uma preta mais "aceita socialmente"
Nátaly é estudante de Ciências Sociais na Unifesp, em São Paulo, tem interesses como moda e beleza. Seu canal no Youtube (Afros e Afins) é incrível e aborda diversos temas de interesse das mulheres, em geral, e em especifico das mulheres negras.



Essa palestra é incrível! Primeiro porque a Monique tem um jeito muito didático de falar e segundo porque acho que ela dialoga muito com o mito da meritocracia. 
Monique é uma das vozes do feminismo negro no Brasil e fala da veia empreendedora nas mulheres negras. Ela é formada Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em Política e Gestão da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, já foi capa da Revista Época, Repórter do Profissão Repórter, é Fundadora da Desabafo Social.



Essa é uma das palestras proferidas no TEDx mais assistidas em todo o mundo. Não é por pouco. A Chimamanda é uma escritora nigeriana que já ganhou prêmios no mundo inteiro por suas obras e tem seus livros traduzidos em 31 idiomas. Tudo isso, até os 40 anos de idade! 
Essa palestra é cheia de humor, mas ao mesmo tempo muito profunda e cheia de reflexões importantes. 


Outra excelente palestra da Chimamanda. Com mais de 3 milhões de visualizações, a autora chama atenção sobre a necessidade de compreender o mundo a partir de suas diversas variáveis, afinal nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas.



Kimberlé W. Crenshaw é uma norte americana defensora dos direitos civis e uma dos principais intelectuais da teoria crítica da raça. Ela é professora em tempo integral na Faculdade de Direito da UCLA (Universidade da Califórnia) e na Columbia Law School. Crenshaw é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como identidades sociais sobrepostas ou interseccionadas, particularmente identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. No #julhodaspretas, em 2017, já escrevi um pouco sobre a Crenshaw aqui no blog. Você pode ler o texto completo neste link.
Nesta palestra, Kimberlé Crenshaw resgata a história de vítimas do racismo para falar sobre a importância da interseccionalidade. Esta é uma das três melhores palestras que já vi sendo proferidas no TEDx. 


Djamila é mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já atuou como secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Ela também é colunista da revista Carta Capital e publicou os livros "O que é lugar de fala" e "Quem tem medo do feminismo negro".
Ouvir a Djamila falar é sempre ótimo. Ela tem objetividade sem tratar os temas de forma superficial. Dá sempre vontade de ouvir mais e mais.


Kenia Maria é atriz, roteirista e empresária. Kenia foi nomeada pela ONU Defensora dos Direitos das Mulheres Negras, em 2017. No YouTube, ela arrasa, desde 2013, com a filha Gabriela Dias, o marido Érico Brás, o filho Mateus Dias com o canal de Youtube. No vídeo, ela fala sobre as motivações que as levaram a criar o canal trazendo importantes reflexões sobre questões raciais.

Karina Vieira é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Políticas Sociais pela Universidade Castelo Branco. Ela também atua como Consultora de Comunicação do Baobá – Fundo pela Equidade Racial e Diretora de Comunicação da AUR. 



No vídeo, Karina explana sobre a formação das identidades e o que envolve este processo.  Ela apresenta exemplos de mulheres e situações que estão contribuindo para a formação positiva desta identidade. Ela também reforça a importância da atuação coletiva. Tudo com aquele carisma incrível da Karina.


Apontada pela Forbes como um dos destaques brasileiros abaixo de 30 anos, Lisiane Lemos é co-fundadora da Rede de Profissionais Negros, coletivo que busca desconstruir barreiras entre profissionais negros e empresas por meio de políticas de diversidade e movimentos sociais. Lisiane fala sobre a descontruconstrução de estereótipos em seu trajeto. 


Carla Fernandes é angolana radicada em Lisboa. Formou-se em tradução das línguas inglesa e alemã. Em 2014, Carla criou o audioblogue Rádio AfroLis onde afrodescendentes que vivem em Lisboa partilham as suas estórias e falam sobre a sua visão pessoal da cidade.
A contribuição mais incrível de sua palestra é fazer a gente pensar sobre o que tem sido chamado "lugar de fala". Os diferentes lugares sociais são demarcadores dos posicionamento de mundo.


Karine de Souza é natural de Barra Mansa/RJ e é a criadora da Negrita Modas. Faz ativismo através da moda e da arte. No vídeo, ela fala sobre a (re)descoberta da identidade negra e como esse processo, em constante movimento, leva ao empoderamento não apenas seu mas de negros e negras que a rodeiam.


Marta Celestino é diretora de Marketing e Novos Negócios na Ebony English, gestora em educação e documentarista. Idealizadora do projeto Diaspora Connections, que visa reconectar a comunidade negra global num movimento de troca de experiências, celebração de conquistas e resgate cultural. 
Nesta palestra, Marta fala sobre coletividade e os aprendizados da ancestralidade.


Presidente do Instituto Das Pretas.Org, ativista social e blogueira. Priscila é uma das grandes referências do Espírito Santo quando o assunto é valorização da estética, autoestima, empreendedorismo e consumo negro. O Instituto que comanda já promoveu diversas ações, de maneira autônoma e independente, que ajudaram a espalhar a importância do empoderamento afrocentrado no coletivo.

15. Uma jornada na busca por identidade e propósito | Juliana Luna | TEDxUERJ

Juliana Luna é editora de estilo da Revista AzMina, estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Neste vídeo ela fala um pouco sobre a reconstrução de sua identidade como mulher negra. Através do depoimento dela, a gente descobre um monte de pequenas coisas sobre nós mesmas.


"Você entende porque ser negra é um problema?" foi a frase que ela ouviu ao tentar seguir a carreira de modelo. Neste vídeo, Luana fala sobre como começou a compreender o racismo a partir de sua experiência como modelo. Atualmente, ela é diretora executiva do ID_BR - Instituto Identidades do Brasil.


Alexandra Loras é ex-consulesa francesa. Ela é graduada com Mestrado em Gestão de Mídia pela escola de Ciências Políticas da França (IEP Paris), consultora e palestrante. Neste vídeo ela fala sobre a construção de estereótipos e seu papel na síndrome do impostor. Particularmente, tenho divergências com Loras - como ela afirmar que existe racismo reverso, por exemplo , mas acho essa palestra muito interessante para pensarmos no racismo como um fenômeno que atinge negros e negras nas diversas classes sociais e países. 



Adriana Barbosa é presidente do Instituto Feira Preta, formada em gestão de eventos, com especialização em gestão cultural pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) da ECA – USP. Neste vídeo, com uma voz incrivelmente doce, ela fala sobre o empoderamento das mulheres negras a partir de histórias de vida de mulheres negras. 


Rosa Luz é cineasta, fotógrafa, poeta, rapper e trançadeira. Como uma mulher negra, trans, e periférica, ela é também ativista e através da arte luta contra todas as formas de opressão. Neste vídeo, com apenas 6 minutos, ela consegue falar sobre sua história de vida que se entrecruza com a história de muitas de nós. 

20. Eu Empregada Doméstica | Preta Rara | TEDxSaoPaulo

Preta Rara é graduada em história, rapper, poeta, cineasta, cantora, DJ... UFA! 
Neste vídeo, ela fala sobre sua experiência a frente da fan page Eu Empregada Doméstica. Eu já assisti a este vídeo tantas vezes que sei quase de cor! Acho a Preta super talentosa e carismática. Essa palestra é extremamente tocante e vale a pena cada minuto dele.



"O nosso legado, não é a escravidão. O nosso legado, passado de geração para geração, é o sonho da liberdade. E a gente vai mudar o mundo"
Amo este vídeo! A Didi Couto tem uma potência incrível. Ela é jornalista na TV Cultura e é uma figura que eu tive como uma referência importante quando apresentei um programa de TV. Nesta palestra, ela fala justamente sobre a representatividade. 




A Taís dispensa apresentações. Neste vídeo, ela fala sobre algo que as mães negras convivem: o medo de criar seus filhos em uma sociedade racista. O vídeo é muito bacana porque nos traz a dimensão de que o racismo afeta negros e negras independente da classe social. 



Stephanie é arquiteta, ativista feminista negra e colunista da Revista Marie Claire. Neste vídeo, ela se emociona ao falar sobre o papel de cura que a escrita teve em sua vida. Através da escrita ela se conecta com mulheres negras e com sua subjetividade. 

24. Desafiando diversas formas de opressão | Maíra Azevedo | TEDxRioVermelho

Maíra é a jornalista baiana, conhecida como Tia Má. Amo essa palestra! Além de amar a Maíra, como uma excelente comunicadora, como uma "brother" que me enche de orgulho, amo essa palestra porque ela também fala sobre meritocracia. Durante este vídeo, eu me emociono diversas vezes. A Maíra fala sobre nossas dores de forma muito certeira e por isso nos dá muita força.


Yasmin Thayná é cineasta e fez o maior barulho com seu filme "Kbela. Um filme sobre Ser mulher e tornar-se negra”. Na palestra ela fala sobre a experiência de fazer o filme com tão pouco dinheiro e a partir de uma narrativa marginalizada. Também lançou a plataforma Afroflix que é é uma plataforma que disponibiliza conteúdos audiovisuais online com uma condição: aqui no AFROFLIX você encontra produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra. 

BÔNUS
Abaixo, ainda trago duas palestras que gosto muito. Ambas são em inglês e não contam com legenda em português. Mas, vale a pena tentar treinar o inglês porque são palestras muito legais!


Melz é recém-formada em Filosofia e Política pela Universidade de Leeds (uma das maiores universidades do Reino Unido). Ela é a pioneira da campanha "Por que meu currículo é branco?", no campus. Melissa também é uma artista, mais especialmente uma rapper. Para quem curte o debate sobre a educação como uma forma de resistência e combate à opressão, essa palestra é imperdível.



Brittany Jonee é uma jovem bahamense que vem sendo destaque nas artes e ciências no seu país, despontando como uma líder valiosa no campus. Além disso, Brittany é uma talentosa violonista. Nesta palestra, ela fala sobre como o violento processo de colonização determinou a vida nas Bahamas, apagando línguas, práticas e valores culturais ancestrais. 


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Termino minha lista por aqui, ou não termino nunca mais porque há muito material incrível produzido por mulheres negras na internet!
Tenho certeza que você também tem uma palestra incrível que não está nesta lista e que você gostaria de indicar. 

Comente aqui no blog aquela palestra que você acha imperdível!