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FALA, PRETA! Day Rodrigues, potência atrás das câmeras



Setembro já começa com novos ares. 
A ideia do blog da Central das Divas sempre foi ajudar a ecoar vozes de mulheres negras pelo mundo. 
Neste mês, estreamos um formato de publicação nunca feito aqui: entrevistas. Apesar de já ter trabalhado com entrevistas na TV, nunca tive a oportunidade de publicar uma entrevista aqui no blog. São pequenas entrevistas para a gente se aproximar de mulheres pretas incríveis que vêm brilhando por aí.
É com um carinho enorme, que publico a primeira entrevista no blog com uma querida amiga: Day Rodrigues.
Aqui ela fala um pouco sobre seus trabalhos, história de vida e perspectivas. Mas, é obvio que a entrevista não dá conta de expressar a doçura misturada a força que a Day transmite.


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Day Rodrigues é natural da cidade de Santos/SP. Ela, além de  minha amiga (ISSO É IMPORTANTE :p), é cineasta, é produtora cultural, educadora e escritora e tem traçado uma trajetória que enche a gente de orgulho. Ela é licenciada em filosofia com especialização em Gestão Cultural, pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC, pesquisa feminismo interseccional, cultura popular e as histórias das diásporas negras. Mas, é no audiovisual que a Day tem brilhado mais.

Foto de Leandro Noronha da Fonseca

Em julho de 2017, no XXI Cine PE - Festival Audiovisual (Recife), foi premiada pelo documentário “Mulheres Negras: Projetos de Mundo” (direção de Day Rodrigues e Lucas Ogasawara), nas categorias júri popular e direção.

Hoje, a Day Rodrigues dá um passo importante em sua trajetória: estreia na GNT, o episódio "Racismo e Resistência" da série "Quebrando Tabu, dirigido por ela. No episódio ela entrevista Djamila Ribeiro, Nilma Lino Gomes, Joice Berth, Patricia Hill Collins, Suzane Pereira da Silva, Mafoane Odara e Gilberto Alexandre Sobrinho e um monte de gente porreta para falar sobre meritocracia, direitos, privilégios e outros temas tão importantes para a população negra. 

Para as pessoas negras, a estreia deste episódio é um importante marco. Em um momento de disputa de narrativas, como reflexo de disputa de poder político, econômico e ideológico, ter alguns dos nossos tratando de questões a partir do nosso lugar de falar é emancipador. 

Para deixar a gente com água na boca, dá só uma olhada no teaser do episódio que estreia hoje, dia 03 de setembro, às 23h30.

Nós mulheres negras somos levadas a duvidar do nosso potencial durante todo o tempo. Como é para você ser uma cineasta, considerando a ausência de negros, principalmente de mulheres, na área?

Day - Eu vivo constantemente o desafio e a dúvida de permanecer numa área em que os recursos ou as políticas públicas nada beneficiam as realizadoras negras. 

Primeiro, em minha geração não tivemos a oportunidade de sonhar com tal trajetória artística e profissional. 

Segundo, a estrutura para pensar num material cinematográfico, para circular em salas comerciais, na TV aberta, nos locais sem internet, não acontece normalmente. Fazemos os nossos trabalhos na maior parte do tempo, de forma independente. Isso não deixa de ter o seu valor, porém, se pensarmos na construção de imaginários, a longo prazo, as histórias são contadas por aqueles que do auge de seus privilégios se acham no direito de falar por nós, mulheres negras, nordestinos, entre muitos outros. Daí, também, a construção dos estereótipos, hisperssexualização dos nossos corpos, papéis de subserviência nas dramaturgias e ausência de intelecto, ou seja, ausência de humanidade.
Então, pesquiso, estudo e faço cinema por acreditar na importância da reconstrução da imagem e narrativas antirracistas. E por perceber assim, que a partir do audiovisual, os debates políticos em torno das questões étnico-raciais podem acelerar a auto percepção de toda uma geração. 

Como surgiu a ideia de um projeto tão sensível como o que você realizou em “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”? 

Day - O filme "Mulheres Negras: Projetos de Mundo" foi e sempre será o meu processo de cura. Eu sou a filha mais velha de um casal de nordestinos, com algumas histórias trágicas pelas famílias. Ainda assim, vivi muito tempo em bairro de classe média de Santos, logo, só com pessoas brancas, apesar de ter estudado em escolas públicas e morar num prédio, em que a grande maioria era de filhos de portuários (trabalhadores do porto de Santos). Porém, hoje, sei que 

parte das minhas angústias em ser a filha de nordestinos é a xenofobia dos paulistas, depois, somado ao estereótipo que me implicava ser vista como mulata ou morena, destituída de uma origem positiva. 

Assim, mesmo sendo a mulher negra de pele menos preta nunca fui tratada de forma respeitosa na minha cidade, sem autoestima internalizei por muito tempo esses fetiches e pouco via perspectiva e horizonte de futuro. Daí, foi ao entrar em contato com os movimentos sociais em Salvador e também com as feministas negras, pude encontrar um campo de saberes para reconstituir quem sou eu, por uma busca também de reconhecimento coletivo. Daí, o filme... 

O que podemos esperar do episódio "Racismo e Resistência” da série “Quebrando o Tabu”, dirigido por você?

Day - O episódio que vai ar hoje, no canal GNT, chega quase dois anos depois da estreia do filme "Mulheres Negras: Projetos de Mundo", depois de percorrer diversos estados brasileiros com sua exibição. Pois, ao perceber o quanto de demanda havia, o quanto as pessoas se identificavam e reconheciam neste documentário, entendi que a minha pergunta: se já sabemos que os lugares de poder são tomados por homens, brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média e ricos, como pensar a partir das mulheres negras/ feministas o significado de agenciar transformação e mudança social a partir da pirâmide social? Afinal, contrariando os estereótipos e as estatísticas, as cotas raciais, a obrigatoriedade do ensino de cultura afro-brasileira e história da África nas escolas (lei 10639), a formação de mídias independentes e das redes sociais para quem está fora da grande imprensa foram fundamentais para propagarmos quem somos nós, na resistência, pela cura e afeto. 

Foto de Daisy Serena

Então, o meu trabalho frente à direção desse episódio foi de pensar como o racismo estrutura e institucionaliza as desigualdades de direito, oportunidade e fuzila sonhos. Assim, podemos esperar que as pessoas brancas precisam compreender as suas responsabilidades, frente a tal problema central da sociedade brasileira.

Day, quais seu planos como cineasta? O que você sonha fazer?

Eu desejo continuar produzindo cinema e alinhavar isso com um trabalho de formação para jovens, em audiovisual. E gostaria também de ter tempo para escrever mais...

Maria Felipa: Heroína da Independência (13/31)

No dia 13 dos 31 no #julhodaspretas nos dedicamos a falar da biografia de Maria Felipa de Oliveira, conhecida a “Heroína Negra da Independência” pela população da Ilha de Itaparica na Bahia. Poucos sabem, mas esta mulher foi uma importante lutadora no processo de independência da Bahia, único estado em que a independência se deu por luta armada no Brasil.

No livro chamado Maria Felipa de Oliveira – Heroína da Independência da Bahia, a professora Eny Kleyde Vasconcelos de Farias  defende que Maria Felipa foi esquecida nos livros de história porque era mulher, negra e pobre e, portanto, foi injustiçada. Entretanto, sua história foi repassada oralmente na ilha de Itaparica, na Bahia. De geração em geração, a imagem da negra alta e forte, que vestia saias rodadas, bata, torso e chinelas foi preservada. 


Sabe-se que Maria Felipa liderou um grupo de mulheres e homens de diferentes classes e etnias e construiu trincheiras nas praias, organizando o envio de mantimentos para o Recôncavo Baiano (região geográfica localizada em torno da Baía de Todos-os-Santos. As principais cidades são: Santo Antônio de Jesus, Santo Amaro, Amargosa, Nazaré, Salinas da Margarida, Cachoeira, Jaguaripe, São Félix, Castro Alves, Maragojipe e Cruz das Almas). Este grupo também organizou vigias nas praias, feitas dia e noite, prevenindo o desembarque de tropas inimigas além de participar ativamente de vários conflitos. Durante as batalhas, seu grupo ajudou a incendiar inúmeras embarcações: a Canhoneira Dez de Fevereiro, em 1º de outubro de 1822, na praia de Manguinhos; a Barca Constituição, em 12 de outubro de 1822, na Praia do Convento; em 7 de janeiro de 1823, liderou aproximadamente 40 mulheres na defesa das praias de Itaparica. Armadas com peixeiras e galhos de cansanção surravam os portugueses para depois atear fogo aos barcos usando tochas feitas de palha de coco e chumbo.

Além da importante liderança, Maria Felipa era simbolo de transgressão de padrões impostos pela sociedade por ser mulher e liderar um grupo armado e, sendo negra e pobre, reivindicar direitos mesmo após o fim da guerra.

Celebrar Maria Felipa é celebrar a importância que as mulheres negras têm assumido nas lutas, mesmo sendo submetidas às piores condições de vida. A existência de mulheres como Maria Felipa na memória negra é prova de que nossa história não será apagada. 

Viva Maria Felipa
Viva as Mulheres Negras



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Um ano sem Luiza Bairros: o legado de uma guerreira (12/31)

Aproveitamos a homenagem às mulheres negras no mês de julho, para também lembrar que perdemos a militante e intelectual negra brasileira Luiza Bairros há 1 ano atrás. Ela deixa saudades, mas também deixa um legado forte e importante. 

Luiza Helena de Bairros, conhecida como Luiza Bairros (1953-2016), mulher negra, nascida em Porto Alegre, foi uma importante intelectual e ativista do movimento negro no Brasil. 

Luiza Bairros se formou em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fazendo seu mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a dissertação O Negro na Força de Trabalho na Bahia, entre os anos 1950 -1980. Em seu estudo, ela destacou a discriminação racial no mercado de trabalho, indicando que quanto maior a ascensão dos negros mais acirrado é o racismo. Seu estudo de doutorado, em sociologia, foi realizado na Universidade de Michigan (USA).



Em seus estudos, Luiza Bairros realizou importantes pesquisas sobre a história do movimento negro brasileiro e de seus personagens, buscando sistematizar o legado da feminista negra Lélia Gonzalez.

Segundo Fernanda Pompeu, o que levou a gaúcha Luíza Bairros a trocar Porto Alegre por Salvador foi a concentração de afro-descendentes, sendo radicada em Salvador desde 1979. Em terras soteropolitanas, Luiza foi uma liderança do Movimento Negro Unificado (MNU); trabalhou em programas das Nações Unidas contra o racismo, em 2001 e em 2005 e foi titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Social da Bahia, de 2008 a 2010.  Entre os anos de 2011 e 2014, Luiza Bairros foi e ministra-chefe da Secretaria de Políticas Públicas da Igualdade Racial. Durante sua gestão, foi aprovado o estatuto da igualdade racial.

No vídeo abaixo, Luiza Bairros fala brilhantemente sobre a importância da sociedade se dedicar ao debate da igualdade racial.


Pude conhecer e ver a força de Luiza Bairros pessoalmente. Foi um momento de fortalecimento da importância de ouvir nossas mais velhas e aprender com elas.



VIVA LUIZA BAIRROS!
VIVA AS MULHERES AFRO LATINO AMERICANAS!

No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!


Leia o texto de Luiza Bairros, NOSSOS FEMINISMOS REVISITADOS





Zeferina: a força vinda de Angola (11/31)

No 11º dia do #julhodaspretas, resgatamos a história de Zeferina. A angolana, sequestrada do continente africano e trazida para o Brasil ainda criança, teve sua história delineada na região de Pirajá, parte de Cajazeiras e Cabula, regiões periféricas e que foram redutos de resistência quilombola na Cidade do Salvador-Ba. Neste local é que foi fundado, por Zeferina, o Quilombo do Urubu.



Registros dizem que ela foi uma importante liderança, responsável pelas estratégias de luta do quilombo. Assim, ela organizava índios e escravizados que fugiam. Mas, Zeferina tinha grandes planos e acreditava que era necessário se unir com os nagôs, invadir a cidade e matar os brancos escravocratas para constituir uma liberdade plena para todo o povo negro.

Planejava a invasão da cidade para o dia 25 de dezembro de 1826, no entanto, um acontecimento fez com que a revolta tivesse o seu início antecipado. Alguns capitães do mato tentaram surpreender, pensando que havia poucas pessoas na mata do Urubu, e se depararam com cinquenta mulheres e homens aquilombados com espingardas, facas, arcos e flechas e fações, que sobre o comando de Zeferina os derrotaram. Assim, três capitães do mato foram mortos e outros três saíram gravemente feridos. Após muita luta, Zeferina foi capturada e assassinada.

Sabe-se que Zeferina protagonizou não apenas esta luta mas também a consolidação do Quilombo do Urubu como espaço de resistência. Uma história que precisa ser contada porque nos enche de coragem e orgulho.


Viva Zeferina!

Viva as mulheres negras!


No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Nina Simone: “É uma obrigação artística refletir o meu tempo.” (05/31)

No quinto dia do #julhodaspretas, vamos falar de um dos maiores nomes do jazz: Nina Simone (1933-2003). Ela foi uma pianista, cantora e compositora norte-americana, além ter sido fortemente comprometida com o ativismo pelos direitos civis dos negros do seu país. 


Eunice Kathleen Waymon, que usou como nome artístico Nina Simone nasceu em Tryon, Carolina do Norte, Estados Unidos. Nina veio do espanhol ‘niña’ e Simone foi uma homenagem à Simone Signoret, grande atriz do cinema francês, a sua preferida. O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que escondida de seus pais, que eram pastores metodistas, pudesse, nos cabarés, cantar blues, a 'música do diabo'.  Com origem humilde, Nina Simone teve seu talento descoberto ainda na infância, na igreja. 

Aos 6 anos, começou a estudar piano. Com dez anos fez seu primeiro recital de piano na biblioteca da cidade. Nesta apresentação, houve um importante episódio que marcou sua vida: seus pais foram retirados da primeira fila para dar lugar a pessoas brancas. O compromisso com a luta com a luta pelos direitos civis dos negros não foi uma opção já que os episódios de racismo marcaram sua carreira como, por exemplo, a rejeição Curtis Institute por motivos raciais.

Na década de 1950, Nina estudou piano clássico e em 1957, assinou seu primeiro contrato com a Bethlehem Records. “Don’t Let Me Be Misunderstood”, “My Baby Just Carier For Me” e “I Love You Porgy”são deste período.

Na década de 1960, Nina grava o álbum “Nina Simone in Concert”, quando, pela primeira vez, se referiu à desigualdade social que imperava no seu país, com a canção “Mississippi Goddamn”. Esta música foi tida como um hino político e suas letras cheias de raiva e desespero contrastavam com o conhecido repertório da artista e deixavam claro o objetivo de Simone de usar sua música como mais um instrumento em favor dos direitos civis. A partir de então, sua mensagem sobre os direitos civis passou a ser constante em seu repertório. Em 1965, gravou a canção “Strange Fruit”, de Billie Holiday, uma canção sobre o linchamento de homens negros no sul. Falamos sobre a Billie Holliday neste post.


No vídeo abaixo, vemos uma apresentação de Nina Simone de“Mississippi Goddamn” em 1965. Emocionante como sempre!




A morte de Martin Luther King, em 1968, abalou profundamente a cantora. No fim da década de 1960, Nina Simone se vê obrigada a deixar os Estados Unidos devido ao racismo. A opção por tratar das questões raciais em sua música fizeram com que ela fosse negligenciada e boicotada. 

Nina entendia a importância de sua atuação política e sofreu por isso. Merece todas as nossas homenagens.

“É uma obrigação artística refletir o meu tempo.” 

Nina Simone faleceu em Carry-le-Rouet, França, no dia 21 de abril de 2003.

Viva Nina Simone!
Viva as Mulheres Negras!

No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

“E eu não sou uma mulher?”: Sojourner Truth e a luta das mulheres negras contra as opressões (04/31)

É comum que mulheres negras reivindiquem um tratamento diferentes entre suas pautas e as pautas de mulheres brancas nos movimentos feministas. Apesar de parecer uma reivindicação nova, em 1851 uma mulher negra já falava sobre isso. A ex escravizada Sojourner Truth, fez um famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. No quarto dia do #julhodaspretas, vamos falar de Sojourner Truth.


Sojouner Truth nasceu na condição de escravizada em Nova Iorque, sob o nome de Isabella Van Wagenen, em 1797. Truth foi tornada livre em 1787, em função da Northwest Ordinance, que aboliu a escravidão nos Territórios do Norte dos Estados Unidos (ao norte do rio Ohio) apesar de o sistema de escravidão nos Estados Unidos, só ter sido abolida nacionalmente em 1865, após a sangrenta guerra entre os estados do Norte e do Sul, conhecida como Guerra da Secessão. Sojourner pode receber alguma escolarização pois viveu alguns anos com um família Quaker e tornou-se uma pregadora pentecostal, ativa abolicionista e defensora dos direitos das mulheres. Em 1843, mudou seu nome para Sojourner Truth (Peregrina da Verdade) e tornou-se uma importante abolicionista e defensora dos direitos das mulheres. 

Em 1851, durante a Women’s Rights Convention em Akron, Ohio, Estados Unidos, Truth fez o seu discurso mais conhecido. Seu discurso é marcante tanto pelo impacto das palavras - já que ela era uma excelente oradora - como pela conjuntura em que ela proferiu as palavras. Segundo Angela Davis, em Mulheres Raça e Classe, não se sabe se Truth foi convidada para a convenção, ou se ela foi por iniciativa própria. Mas, sabe-se que a plateia era branca e com a presença de diversos homens que diziam - em uma convenção de direitos das mulheres! - que as mesmas não deveriam ter os mesmos direitos que os homens, porque seriam frágeis, intelectualmente débeis, porque Jesus foi um homem e não uma mulher e porque, por fim, a primeira mulher fora uma pecadora. Truth era a única negra a participar do evento e ela fez o que nenhuma mulher branca fez: destruiu os argumentos dos homens que estavam no local. Leia o histórico discurso.

"Muito bem crianças, onde há muita algazarra alguma coisa está fora da ordem. Eu acho que com essa mistura de negros do Sul e mulheres do Norte, todo mundo falando sobre direitos, o homem branco vai entrar na linha rapidinho.

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? 

Eu pari reze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?

Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como eles chamam isso… [alguém da audiência sussurra, “intelecto”). É isso querido. O que é que isso tem a ver com os direitos das mulheres e dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, porque você me impediria de completar a minha medida?

Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso.

Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.


Agradecida a vocês por me escutarem, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer."

Se hoje já sabemos o peso do silenciamento a que mulheres pretas são submetidas, como deve ter sido para Truth se posicionar com tanta força contra o machismo ainda no século XIX? Este discurso coloca a dimensão das especificidades das mulheres negras na luta contra as opressões. Se para as mulheres brancas a luta é contra o machismo, para as mulheres pretas lutamos ainda para sermos consideradas mulheres. Lutamos para que as opressões não apaguem nossa condição como mulher. Por isso, precisamos reverenciar a coragem de Truth. Uma mulher como ela faz com que a gente tenha em quem nos inspirar.



No vídeo abaixo, você vê Kerry Whashington lendo o discurso de Truth.


Viva Sojouner Truth!

Viva as mulheres negras!

No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

12 DIVAS NEGRAS E SEUS LOOKS NO GRAMMY 2017

A noite de premiação do Grammy 2017 foi da Beyoncé. Apesar de não ter levado o prêmio de álbum do ano, ela levou para casa duas estatuetas, de melhor álbum urbano contemporâneo, por "Lemonade", e videoclipe, por "Formation". Isso sem falar na performance maravilinda que está disponível neste link.

Mas, além da Beyoncé teve mais close de mulher preta no Grammy 2017.

Separamos alguns looks das pretas na noite de premiação do Grammy 2007 pra gente admirar as Divas:



 Jenniffer Lopez - 47 anos de puro glamour. Olha o tamanho da fenda no vestido! 




 Andra Day e seu olhar matador, estava parecendo um anjo




 A pequena Blue Ivy com um look homenageando o Prince! Estava demais, né?




 
 Cynthia Erivo com um cabelo que é puro close! Meu deos! A atriz é estrela de "A cor púrpura", musical na Brodway




 O terninho da cantora Jill Scott estava lindo, mas confesso que me a estampa me deu um pouco de tontura!




 A Laverne Cox mostrando que só vai se for for pra arrasar! Genthy, embalada a vácuo!! Que corpão, minhasossasinhora




 A Mya com um terninho vermelho lindo! Parece que os terninhos estão tudo mesmo. Eu que amo vermelho usaria sim!



A rapper Remy Ma arrasando no brilho! Vestido de cauda é um negócio que me seduz!





 A rainha Riri não ganhou prêmio nenhum, mas foi arrasando no look para mostrar as tatuagens! Ela arrasa sempre, né, non?




 A Ciara não está deixando nada a dever a gravidez da Beyoncé! Vestido de cauda novamente, muito brilho! Loooxo




 A Solange Knowles vai sempre pra impressionar. Alguns não gostaram. Eu achei que todo brilho pra ela é merecido.




A maravilhosa-rainha-divina-musadasmusas Taraji Henson foi com um look cheio de astros para homenagear o "Hidden Figures" Pra mim, se ela fosse com uma roupa toda furada estaria linda de qualquer jeito.







BÔNUS: BEYONCÉ!
A Bey arrasou com dois looks:

Lindeza! Durante seu show no Grammy ela veio linda de dourado. Vi muita oxunzisse aqui. Ora yê yê



Por fim, Beyoncé Knowles, que não passou pelo Red Carpet, mas arrasou no look vermelho e os dois prêmios da noite.




Entre todos os looks, o da Queen B foi meu preferido: vermelho com cauda, coladinho e com brilho! Arrebatou meu coração!
Conta pra nós: qual foi o seu look preferido na noite do Grammy 2017?

DIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA PARA QUEM?

Eu havia prometido que não ia fazer postagem especial da consciência negra por dois motivos. O primeiro é que este blog já se dedica a questões raciais o ano todo. O segundo é porque gostaria de ler, ver e ouvir outras pessoas sobre o tema. Mas, depois de passar o dia 20 de novembro vendo tanta gente se manifestar pelo dia da consciência humana, meus dedinhos ficaram coçando... e me trouxeram até aqui.



Não pretendo fazer piada ou ironia sobre quem se dedicou a convocar o dia da "Consciência Humana" porque pretendo me dirigir aos negros e negras que ainda passam o dia 20 de novembro dizendo "SOMOS TODOS IGUAIS".

Preciso dizer que entendo quem afirma SOMOS TODOS IGUAIS. Esta afirmação, especialmente quando vem de pessoas negras, surge da urgência de se afirmar como alguém que tem tanta humanidade quanto um branco ou um asiático. Surge da necessidade de reforçar a ideia de respeito a si, mas ao outro também. Ou seja, ela é legítima. Mas, eu gostaria de dizer que apesar de entender, eu não concordo. Por diversos motivos.

Primeiro é necessário entender a origem da data e os motivos se sua celebração. Dia 20 de novembro é a data de assassinato de um dos poucos líderes da luta negra que a história não apagou: ZUMBI DOS PALMARES. O líder do Quilombo dos Palmares foi assassinado nesse dia pelas tropas coloniais brasileiras, em 1695. Isso já seria motivo para a gente ter um feriado. 

Nunca vi ninguém questionando o Dia de Tiradentes, ou o dia de nascimento de Jesus, por exemplo. 


Mas, há uma outra questão: a instituição deste dia como feriado foi a partir da luta do movimento negro organizado. Reconhecer a importância deste dia é reconhecer a luta de Zumbi e dos movimentos negros no Brasil.
Quando você fala que é necessário dia da consciência humana e não consciência negra, você desconsidera o aspecto histórico e a luta dessas pessoas. Uma luta que foi responsável pela maioria das conquistas que tivemos até aqui. 

Ainda há algo mais profundo na celebração deste dia: ACREDITE, NÃO SOMOS TODOS IGUAIS. Isso é bom. Os diferentes devem ser tratados como diferentes. Temos necessidades diferentes. Mas, para além disso, na nossa sociedade a maioria de negros e negras não são tratados como diferentes, eles são tratados como alguém sem humanidade, ainda hoje somos tratados como não humanos e afirmar que somos todos humanos não vai fazer com que mulheres negras deixem de morrer 54% a mais que as brancas. Afirmar que somos todos iguais não vai fazer com que negros e negras sejam tratados em pé de igualdade nos departamentos de recursos humanos. Afirmar que somos todos iguais não vai fazer com que os jovens negros sejam menos mortos pela polícia no Brasil e também nos Estados Unidos.


A sociedade nos trata como diferentes. Afirmar "SOMOS TODOS IGUAIS" não vai fazer com que a sociedade mude como em uma mágica.

A gente precisa enfiar o dedo na ferida. Desvendar o racismo, reconhecer onde e como ele funciona. Enquanto houver racismo deve haver Dia da Consciência Negra. Precisamos falar sobre as diferenças e mostrar que elas não nos fazem piores. Precisamos sim falar sobre a questão racial para comprometer a sociedade inteira com saídas efetivas para o racismo. Não falar sobre o racismo não vai resolver. Precisamos encará-lo de frente no dia 20 de novembro e no ano inteiro.