Mostrando postagens com marcador racismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador racismo. Mostrar todas as postagens

25 PALESTRAS IMPERDÍVEIS DE MULHERES NEGRAS NO TEDX

      O TED (sigla de Technology, Entertainment, Design) é uma série de conferências realizadas pelo mundo pela fundação Sapling, dos Estados Unidos, sem fins lucrativos, destinadas à disseminação de ideias – segundo as palavras da própria organização, "ideias que merecem ser disseminadas". Suas apresentações são limitadas a dezoito minutos, e os vídeos são amplamente divulgados na Internet.
       Em março de 2018, tive a oportunidade de ser uma das palestrantes do TEDx, que aconteceu em Campinas. Os organizadores entraram em contato comigo através de indicações e acharam interessante minhas contribuições como pesquisadora aliadas à minha trajetória na militância. Em conjunto, nós pensamos em uma palestra que pudesse questionar o status quo e levasse um pouco da minha trajetória para enriquecer as reflexões. O resultado foi uma palestra que abordou o "mito da meritocracia".
         Optei por questionar o que está por trás da ideologia do "quem quer consegue" que individualiza os sucessos e fracassos em uma sociedade que cria oportunidades desiguais para os diferentes grupos sociais. A partir da perspectiva da meritocracia, uma pessoa não atinge determinados objetivos por não ter se "esforçado" o suficiente. Entretanto, ao analisar os grupos que menos atingem os objetivos que socialmente são encarados como "sucesso", vemos que são os mesmos grupos que enfrentam barreiras como o racismo, machismo, homofobia e outras opressões. Seria coincidência? Acredito que não. Sem dar mais spoilers... o link do vídeo está aqui.
          Durante o processo de preparação da minha palestra, procurei assistir a outras palestras realizadas no TEDx e que dialogassem com meus interesses. Eu vi dezenas de palestras bacanas, por isso resolvi fazer uma coletânea de palestras proferidas por mulheres negras em uma playlist do YouTube. São palestras inspiradoras que me fizeram pensar muito, mas acima de tudo entender como as mulheres negras têm contribuído com um novo paradigma de sociedade. Este é o verdadeiro sentido do que diz a filósofa Angela Davis:

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

           Abaixo, você encontra um pouco da descrição de cada palestra e/ou palestrante e aqui você encontra o link da playlist completa. Se você quiser, pode ver cada vídeo em separado clicando no título de cada um.

 VEJA, ESCUTE, LEIA MULHERES NEGRAS



Começo pela minha palestra que foi realizada em Campinas, em março de 2018. Mulher nordestina, negra, candomblecista, feminista e militante.  Mestra e doutora em Educação pela UNICAMP, concluí doutorado sanduíche na Universidade de Tecnologia de Braunschweig, Alemanha. Em 2015, estive na lista das 25 mulheres negras mais influentes da internet no Brasil. 



Pesquiso sobre educação e ciência - a partir de uma perspectiva marxista, feminismo negro e estética. Também atuo como professora e afro-empreendedora através da Central das Divas.



Nataly fala da expectativa que envolve a menina negra em se tornar a "mulata", que seria uma preta mais "aceita socialmente"
Nátaly é estudante de Ciências Sociais na Unifesp, em São Paulo, tem interesses como moda e beleza. Seu canal no Youtube (Afros e Afins) é incrível e aborda diversos temas de interesse das mulheres, em geral, e em especifico das mulheres negras.



Essa palestra é incrível! Primeiro porque a Monique tem um jeito muito didático de falar e segundo porque acho que ela dialoga muito com o mito da meritocracia. 
Monique é uma das vozes do feminismo negro no Brasil e fala da veia empreendedora nas mulheres negras. Ela é formada Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em Política e Gestão da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, já foi capa da Revista Época, Repórter do Profissão Repórter, é Fundadora da Desabafo Social.



Essa é uma das palestras proferidas no TEDx mais assistidas em todo o mundo. Não é por pouco. A Chimamanda é uma escritora nigeriana que já ganhou prêmios no mundo inteiro por suas obras e tem seus livros traduzidos em 31 idiomas. Tudo isso, até os 40 anos de idade! 
Essa palestra é cheia de humor, mas ao mesmo tempo muito profunda e cheia de reflexões importantes. 


Outra excelente palestra da Chimamanda. Com mais de 3 milhões de visualizações, a autora chama atenção sobre a necessidade de compreender o mundo a partir de suas diversas variáveis, afinal nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas.



Kimberlé W. Crenshaw é uma norte americana defensora dos direitos civis e uma dos principais intelectuais da teoria crítica da raça. Ela é professora em tempo integral na Faculdade de Direito da UCLA (Universidade da Califórnia) e na Columbia Law School. Crenshaw é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como identidades sociais sobrepostas ou interseccionadas, particularmente identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. No #julhodaspretas, em 2017, já escrevi um pouco sobre a Crenshaw aqui no blog. Você pode ler o texto completo neste link.
Nesta palestra, Kimberlé Crenshaw resgata a história de vítimas do racismo para falar sobre a importância da interseccionalidade. Esta é uma das três melhores palestras que já vi sendo proferidas no TEDx. 


Djamila é mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), já atuou como secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Ela também é colunista da revista Carta Capital e publicou os livros "O que é lugar de fala" e "Quem tem medo do feminismo negro".
Ouvir a Djamila falar é sempre ótimo. Ela tem objetividade sem tratar os temas de forma superficial. Dá sempre vontade de ouvir mais e mais.


Kenia Maria é atriz, roteirista e empresária. Kenia foi nomeada pela ONU Defensora dos Direitos das Mulheres Negras, em 2017. No YouTube, ela arrasa, desde 2013, com a filha Gabriela Dias, o marido Érico Brás, o filho Mateus Dias com o canal de Youtube. No vídeo, ela fala sobre as motivações que as levaram a criar o canal trazendo importantes reflexões sobre questões raciais.

Karina Vieira é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Políticas Sociais pela Universidade Castelo Branco. Ela também atua como Consultora de Comunicação do Baobá – Fundo pela Equidade Racial e Diretora de Comunicação da AUR. 



No vídeo, Karina explana sobre a formação das identidades e o que envolve este processo.  Ela apresenta exemplos de mulheres e situações que estão contribuindo para a formação positiva desta identidade. Ela também reforça a importância da atuação coletiva. Tudo com aquele carisma incrível da Karina.


Apontada pela Forbes como um dos destaques brasileiros abaixo de 30 anos, Lisiane Lemos é co-fundadora da Rede de Profissionais Negros, coletivo que busca desconstruir barreiras entre profissionais negros e empresas por meio de políticas de diversidade e movimentos sociais. Lisiane fala sobre a descontruconstrução de estereótipos em seu trajeto. 


Carla Fernandes é angolana radicada em Lisboa. Formou-se em tradução das línguas inglesa e alemã. Em 2014, Carla criou o audioblogue Rádio AfroLis onde afrodescendentes que vivem em Lisboa partilham as suas estórias e falam sobre a sua visão pessoal da cidade.
A contribuição mais incrível de sua palestra é fazer a gente pensar sobre o que tem sido chamado "lugar de fala". Os diferentes lugares sociais são demarcadores dos posicionamento de mundo.


Karine de Souza é natural de Barra Mansa/RJ e é a criadora da Negrita Modas. Faz ativismo através da moda e da arte. No vídeo, ela fala sobre a (re)descoberta da identidade negra e como esse processo, em constante movimento, leva ao empoderamento não apenas seu mas de negros e negras que a rodeiam.


Marta Celestino é diretora de Marketing e Novos Negócios na Ebony English, gestora em educação e documentarista. Idealizadora do projeto Diaspora Connections, que visa reconectar a comunidade negra global num movimento de troca de experiências, celebração de conquistas e resgate cultural. 
Nesta palestra, Marta fala sobre coletividade e os aprendizados da ancestralidade.


Presidente do Instituto Das Pretas.Org, ativista social e blogueira. Priscila é uma das grandes referências do Espírito Santo quando o assunto é valorização da estética, autoestima, empreendedorismo e consumo negro. O Instituto que comanda já promoveu diversas ações, de maneira autônoma e independente, que ajudaram a espalhar a importância do empoderamento afrocentrado no coletivo.

15. Uma jornada na busca por identidade e propósito | Juliana Luna | TEDxUERJ

Juliana Luna é editora de estilo da Revista AzMina, estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Neste vídeo ela fala um pouco sobre a reconstrução de sua identidade como mulher negra. Através do depoimento dela, a gente descobre um monte de pequenas coisas sobre nós mesmas.


"Você entende porque ser negra é um problema?" foi a frase que ela ouviu ao tentar seguir a carreira de modelo. Neste vídeo, Luana fala sobre como começou a compreender o racismo a partir de sua experiência como modelo. Atualmente, ela é diretora executiva do ID_BR - Instituto Identidades do Brasil.


Alexandra Loras é ex-consulesa francesa. Ela é graduada com Mestrado em Gestão de Mídia pela escola de Ciências Políticas da França (IEP Paris), consultora e palestrante. Neste vídeo ela fala sobre a construção de estereótipos e seu papel na síndrome do impostor. Particularmente, tenho divergências com Loras - como ela afirmar que existe racismo reverso, por exemplo , mas acho essa palestra muito interessante para pensarmos no racismo como um fenômeno que atinge negros e negras nas diversas classes sociais e países. 



Adriana Barbosa é presidente do Instituto Feira Preta, formada em gestão de eventos, com especialização em gestão cultural pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) da ECA – USP. Neste vídeo, com uma voz incrivelmente doce, ela fala sobre o empoderamento das mulheres negras a partir de histórias de vida de mulheres negras. 


Rosa Luz é cineasta, fotógrafa, poeta, rapper e trançadeira. Como uma mulher negra, trans, e periférica, ela é também ativista e através da arte luta contra todas as formas de opressão. Neste vídeo, com apenas 6 minutos, ela consegue falar sobre sua história de vida que se entrecruza com a história de muitas de nós. 

20. Eu Empregada Doméstica | Preta Rara | TEDxSaoPaulo

Preta Rara é graduada em história, rapper, poeta, cineasta, cantora, DJ... UFA! 
Neste vídeo, ela fala sobre sua experiência a frente da fan page Eu Empregada Doméstica. Eu já assisti a este vídeo tantas vezes que sei quase de cor! Acho a Preta super talentosa e carismática. Essa palestra é extremamente tocante e vale a pena cada minuto dele.



"O nosso legado, não é a escravidão. O nosso legado, passado de geração para geração, é o sonho da liberdade. E a gente vai mudar o mundo"
Amo este vídeo! A Didi Couto tem uma potência incrível. Ela é jornalista na TV Cultura e é uma figura que eu tive como uma referência importante quando apresentei um programa de TV. Nesta palestra, ela fala justamente sobre a representatividade. 




A Taís dispensa apresentações. Neste vídeo, ela fala sobre algo que as mães negras convivem: o medo de criar seus filhos em uma sociedade racista. O vídeo é muito bacana porque nos traz a dimensão de que o racismo afeta negros e negras independente da classe social. 



Stephanie é arquiteta, ativista feminista negra e colunista da Revista Marie Claire. Neste vídeo, ela se emociona ao falar sobre o papel de cura que a escrita teve em sua vida. Através da escrita ela se conecta com mulheres negras e com sua subjetividade. 

24. Desafiando diversas formas de opressão | Maíra Azevedo | TEDxRioVermelho

Maíra é a jornalista baiana, conhecida como Tia Má. Amo essa palestra! Além de amar a Maíra, como uma excelente comunicadora, como uma "brother" que me enche de orgulho, amo essa palestra porque ela também fala sobre meritocracia. Durante este vídeo, eu me emociono diversas vezes. A Maíra fala sobre nossas dores de forma muito certeira e por isso nos dá muita força.


Yasmin Thayná é cineasta e fez o maior barulho com seu filme "Kbela. Um filme sobre Ser mulher e tornar-se negra”. Na palestra ela fala sobre a experiência de fazer o filme com tão pouco dinheiro e a partir de uma narrativa marginalizada. Também lançou a plataforma Afroflix que é é uma plataforma que disponibiliza conteúdos audiovisuais online com uma condição: aqui no AFROFLIX você encontra produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra. 

BÔNUS
Abaixo, ainda trago duas palestras que gosto muito. Ambas são em inglês e não contam com legenda em português. Mas, vale a pena tentar treinar o inglês porque são palestras muito legais!


Melz é recém-formada em Filosofia e Política pela Universidade de Leeds (uma das maiores universidades do Reino Unido). Ela é a pioneira da campanha "Por que meu currículo é branco?", no campus. Melissa também é uma artista, mais especialmente uma rapper. Para quem curte o debate sobre a educação como uma forma de resistência e combate à opressão, essa palestra é imperdível.



Brittany Jonee é uma jovem bahamense que vem sendo destaque nas artes e ciências no seu país, despontando como uma líder valiosa no campus. Além disso, Brittany é uma talentosa violonista. Nesta palestra, ela fala sobre como o violento processo de colonização determinou a vida nas Bahamas, apagando línguas, práticas e valores culturais ancestrais. 


...................................................................................................................

Termino minha lista por aqui, ou não termino nunca mais porque há muito material incrível produzido por mulheres negras na internet!
Tenho certeza que você também tem uma palestra incrível que não está nesta lista e que você gostaria de indicar. 

Comente aqui no blog aquela palestra que você acha imperdível!

VOCÊ SABE PORQUE 21 DE MARÇO É O DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL?


O dia 21 de março tem sido lembrado mundialmente como o dia internacional de combate a discriminação racial. 

VOCÊ SABE PORQUE 21 DE MARÇO É O DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL?

A história que marcou esta data é tão triste que precisa ser lembrada. Há 57 anos, na África do Sul foram 69 mortos. 180 feridos. Todos negros.


No dia 21 de Março de 1960, ocorreu na cidade de Sharpeville, na província de Gauteng, na África do Sul, um protesto, realizado durante o Congresso Pan-Africano (PAC) contra a Lei do Passe

O passe ou caderneta existia há muito tempo e era um dos principais elementos do apartheid. Antes, o passe controlava as pessoas escravizadas. Com a instauração do apartheid ele servia como instrumento de controle do governo contra os negros. O documento era de porte obrigatório e continha foto, dados pessoais, números e registros profissionais e ficha criminal. 

Durante o Congresso Pan-Africanista (PAC), uma dissidência do CNA fundada no final de 1959, liderada por Robert Subukwe, se antecipou e organizou um protesto pacífico para o dia 21 de março. A ideia era uma manifestação não-violenta em que os africanos deveriam deixar os passes em casa e comparecer às delegacias de polícia para se entregarem e serem presos. Assim, provocariam uma pane no sistema político e econômico, uma vez que as prisões estariam lotadas e faltaria mão de obra.

Dia 21/03/1960 houve um comparecimento em massa ao protesto. Em Sharpeville, próximo à Johanesburgo, uma multidão de 5 a 7 mil pessoas se reuniu em frente ao distrito policial. A polícia, acoada, abriu fogo contra os negros que protestavam. Foram quase 70 mortos, além de 180 feridos. Nenhum policial foi condenado ou preso.


Logo após o massacre, os conflitos se acirraram no país. O governo baniu qualquer aglomeração pública em toda a África do Sul. Logo depois, os partidos de resistência negra, CNA e o PAC foram banidos e um estado de emergência foi declarado. Nelson Mandela abandonou a política de não-violência que vinha adotando contra o regime do apartheid, sendo preso em 12 de junho de 1964.

Podemos dizer que o Massacre de Sharpeville foi um marco na história do apartheid na África do Sul. e obrigou a comunidade internacional a se posicionar sobre as condições dos negros no país.

Para nós, negros, é mais um dia de combate diante das violências que a discriminação racial promove no mundo. Mais um dia para lembrarmos de irmãos e irmãs assassinados pelo racismo todos os dias. Mais um dia para a comunidade negra lutar pelo direito à vida!


VIDAS NEGRAS IMPORTAM!
BLACK LIVES MATTER!
NÓS QUEREMOS VIVER!

GUEST POST: Academicismo negro e a falta de honestidade da hegemonia universitária. - Por Sidélia Silva


Há muito tempo venho namorando alguns escritos de manas amigas para trazer para um post no Blog da Central das Divas. Se gosto de receber amigos na minha casa, porque não amaria receber aqui no Blog?

Para estrear a seção de Guest Post, tenho o maior orgulho de apresentar um texto da amiga querida: Sidélia Silva. Sobre um tema que sempre temos discutido e que aqui ela coloca um pouco pra fora.

Vale a pena cada palavra!
Comentem. Divulguem. Debatam!

***************************************************

Academicismo negro e a falta de honestidade da hegemonia universitária
Por Sidélia Silva*

“A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da Casa Grande” e sim para incomoda-los em seus sonos injustos.”
(Conceição Evaristo)


Ultimamente, tenho recebido algumas ~acusações~ de ser “academicista” e isso tem vindo de gente branca, classe média e universitária, pessoas que reivindicam se o meu feminismo chega na periferia, como se na periferia não houvesse feminismo, sendo que nunca vi essas pessoas por lá. Vejam vocês! E isso tudo porque faço indicações de textos em conversas amenas. Quando o bixo pega na discussão, eu já tinha indicado o texto que se a pessoa quisesse mesmo saber sobre o assunto teria parado a discussão e ia ler, olhem bem! O que é isso? Privilégio! Quando você pode discorrer sobre diversos temas à vontade e confortavelmente a partir do alto do seu senso comum ao invés de voltar 2 casas e passar sua vez.

Não tenho nenhum remorso, vergonha ou peso na consciência de mandar um/a playboy ler um texto, principalmente se for da academia (porque eu tenho recorte de raça, classe e gênero, coerência), não faz mais que obrigação para entrar numa discussão, principalmente quando são discussões de acumulo e cunho politico.

Fico pensando onde a falta de honestidade e dignidade dessas pessoas chegam? Ao ponto de reivindicar a periferia? Estou falando de pessoas bem nutridas, estudadas, com a pele ~bonita~ e saudável, classe média que estão há anos na universidade e quando ouvem um conceito acadêmico proferido por mim (estou a 1 ano no feudo Unicamp) me ~acusam~ de “academicista” e me perguntam se isso chega na periferia. 

Eu fico na dúvida se essa pergunta é porque essas pessoas estão há anos na universidade e simplesmente não estudaram como deveriam e por isso não sabem do que eu estou falando e usam essas perguntas como um tipo de defesa desonesta? Ou se elas acham que são periféricas, ou ainda estão usando o conceito de classe contido em Marx como a separação dicotômica do proletariado e da burguesia e não sabem que desde 1970 tem um lugar ao sol no debate de classe marxista para a classe média (Décio Saes e Armando Boito Jr.) ou nova pequena burguesia (Poulantzas) na luta de classes marxista, viu gente?


A maior parte do que sei não veio da academia. PASMEM! Veio da formação em movimentos sociais que sabem que A PERIFERIA NÃO É BURRA e nem subestima a sua capacidade de cognição, de pensar, produzir conceitos, relacionar, argumentar, produzir conhecimento, refletir e sim, é capaz de absorver conceitos e construir um raciocínio lógico tranquilamente a partir da sua vivência (Conceição Evaristo) e do que acontece no seu cotidiano. E que a maioria dos movimentos sociais sabem que precisamos nos formar, dialogar e trocar informações entre o que está sendo construído como pensamento hegemônico por 2 motivos: 

a) o pensamento hegemônico também impacta na vida real das pessoas. Ao contrário do que se argumenta, a teoria não fica contida em si, ela impacta no modo de pensar das pessoas vide o ~favor~ que Gilberto Freyre nos fez;

b) para que haja contra argumentos desse pensamento hegemônico que muitas vezes é racista, classista, homofobico, transfobico, capacitista entre outras opressões que acabam por se naturalizar na prática através do discurso teórico;

Dissimular preocupação com a periferia, para além de desonesto é racista e classista também, quer dizer: “Vai para lá, lá é o seu lugar!” Quer dizer, olha a “argumentação” (~acusação~) que a galera branca, classe média e universitária está desenvolvendo!? No mínimo incompetente e no máximo tendencioso. 
E mais, dá fortes indícios que talvez a pessoa que se utiliza desse artifício desonesto nunca tenha dado uma formação ou trocado ideia com a periferia para além do seu objeto de pesquisa. Pois, a maioria dos conflitos que estudamos e refletimos na academia acontecem em alguma medida na vida dessas pessoas:

  • Pergunta para as meninas o que elas pensam com relação a sua posição no mundo enquanto mulheres e logo você verá que sim, existe feminismo na periferia;
  • Pergunta para a galera LGBTT periférica o que aflige eles e elas você ouvirá sobre lesbofobia, bifobia, transfobia, homofobia e as demais opressões que a heteronormatividade acarreta para essas pessoas;
  • Pergunta para um cara que tá chegando em casa do trampo o que ele acha do seu patrão você encontrará a luta de classes;
  • Pergunta para elas e eles como fazem a sua diversão, você verá que existe uma cultura própria na periferia;
  • Pergunta para galera sobre a polícia você verá que a maioria não vê sentido na polícia;

Isso aqui é saber popular, vivência, prática. 

O academicismo precisa de criticas mesmo, mas em outro sentido, no sentido de considerar saberes empíricos, no sentido de romper com a desigualdade entre a diplomação e a não diplomação, e não nesse sentido sujo de não saber como argumentar em um discussão que se inseriu. Percebo escuramente que a periferia tem me formado cada vez mais. A Unicamp vai me dar um diploma e os conceitos básicos para entender as construções teóricas existentes, mas a convivência com a periferia, ter estado e vivido me traz outras perspectivas e outro tipo de construção acadêmica, eu tenho a necessidade de transmitir isso e de absorver qual a percepção da periferia sobre os assuntos. Como diz Conceição Evaristo: “A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da Casa Grande” e sim para incomoda-los em seus sonos injustos.”

Não estou aqui também romantizando a periferia (nasci e vivi por 16 anos em uma periferia), todas as contradições colocadas pela hegemonia também a incorporam. Assim como os bairros de alto luxo, classe média etc. têm suas posições e ideologias, e dificilmente isso é questionado, a periferia por vezes reproduz esses posicionamentos, discursos e ideologias, e é o objeto de pesquisa, é o “diferente”, como se essas posições e discursos não fossem feitos para alcançar a periferia mesmo e desmobilizá-la enquanto classe.

Reproduzir o discurso de que um diploma não é importante para uma pessoa negras e/ou pobre que almejam entrar em um curso superior. JAMAIS! Vou ajudar no que puder para essa pessoa acessar a universidade, se quiser. Se as pessoas almejam se formar eu acho que temos que apoiar, mesmo sabendo das dificuldades da academia. Fomento isso, sim! Fazer o contrário é falta de responsabilidade com as minhas causas e convicções. 

Existe uma grande diferença entre privilégio e acesso. O privilégio é a vivência natural de uma classe específica (ex. viagens para o exterior, faculdade, carro, mesada etc.) Enquanto que acesso vem a partir da luta por direitos para que uma classe acesse algum direito ou cidadania que os é negado ou a inserção em instituições excludentes (ex. cotas raciais, cotas sociais, bolsas para cotistas se manterem na universidade, cotas em concursos públicos etc.)

Não é justo, muito menos honesto, cobrarmos purismo revolucionário da periferia, as pessoas que tem privilégios precisam se responsabilizar de fato e parar com essa desonestidade fetichista. Estou dizendo que na periferia as pessoas têm a noção e a dimensão mínima dos conflitos que as perpassam enquanto indivíduo ou grupo.  Conversa dois minutos da vida com qualquer pessoa de lá, sem chegar sorrindo estridentemente, mostrando a sua boa educação e como você é “humilde” e “simpático/a” para fingir o seu nojo de pobre que está na sua cara e seja você e trate as pessoas como você trata as pessoas converse com elas enquanto pessoas não quanto objeto de análise, não como ode à miséria, não como gestão da pobreza.

Aqui, penso na questão do diálogo, pessoas brancas, classe média e universitárias. Quando é que a periferia se tornou uma preocupação de diálogo para vocês, para além de seus objetos de pesquisas? É muita prepotência. Percebem que isso é apenas uma defesa de privilégio e mais uma vez disfarçada de preocupação? 

Negras, negros e periferia podem estar onde eles e elas quiserem: na periferia, na academia, na obra, na diretoria etc. Tenho lido muito e a maioria das minhas leituras não vão no sentido do que estudo na academia. Elas vão no sentido da minha militância nos movimentos sociais, de entender a questão de gênero, a questão racial e de classe que é o que perpassa por mim enquanto pessoa, enquanto militância e enquanto vivência e pela maioria das pessoas com as quais eu convivo. Tenho lido muito mesmo, tenho me aventurado até no francês (que ainda levo 5 vezes o tempo de leitura normal) e logo menos vou me aventurar no alemão para saber cada vez mais e poder transmitir isso para as formações nos movimentos sociais. 

Sua preocupação dissimulada não passará! Haverá cada vez mais, negros e negras da periferia acessando a universidade questionando sobre o seu aprendizado, absorvendo aprendizado e retransmitindo para a sua militância ou trazendo sua vivência para a academia e vice versa e tudo isso junto. 

“Não temos tempo para abrir mão de qualquer instrumento de luta. Se os brancos podem abrir mão do conhecimento sistematizado, eles que abram mão. Não deixarei nenhum dos nossos abrir mão do que a humanidade produziu e tomar este conhecimento para transformar a sua e a nossa realidade. Eu afirmo que, em nossas mãos, o conhecimento sistematizado pode tomar uma dimensão revolucionária. É tudo nosso e nada deles!” (PINHO, 2015)

Sigamos!








*Sidélia Silva compõe o Coletivo de Mulheres Negras Lélia González, a Frente de Mulheres Negras de Campinas e o Coletivo de Entretenimento Afrontamento Close. Ela lacra, brilha, fecha a boate e não sofre por amor.



Referências:

Custódio, Túlio. Amarras das letras: das criticas ao academicismo na militância. 2016. Disponível em <http://www.geledes.org.br/amarras-das-letras-das-criticas-ao-academicismo-da-militancia/>


HOOKS, bell. Intelectuais Negras. 1995. Disponível em < https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/viewFile/16465/15035>


PINHO, Carolina. Eu, mulher negra na universidade...academicista? 2015. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2015/07/29/eu-mulher-negra-na-universidade-academicista/>


SANTOS, Sônia Beatriz. Feminismo Negro Diaspórico. 2007. Disponível em <http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/view/157/100>


3 RAZÕES PELOS QUAIS AS MULHERES NEGRAS TEM MAIS CHANCE DE MORRER DE CÂNCER DE MAMA

O outubro rosa é uma campanha que acontece no mundo inteiro e tem o objetivo de alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Esta campanha acontece desde 1997 e tem como símbolo o laço cor de rosa. 



Para além de monumentos iluminados com luz rosa (e o uso comercial que algumas empresas fazem), existe um pano de fundo muito importante: o câncer de mama é a segunda maior forma de morte da mulher brasileira, são mais 12 mil mulheres mortas por ano a cada ano, além de quase 60 mil novos casos (Dados do Instituto Brasileiro de Câncer). 

Recentemente, descobri que o índice de mortalidade de mulheres negras vítimas de câncer de mama é maior, ainda que este tipo de câncer atinja em maior número as mulheres brancas. De acordo com TheLedger.com, a taxa de mortalidade para as mulheres negras com câncer de mama é 60% maior. São cerca de 56,8 mortes por 100 mil, enquanto entre as mulheres brancas média 35,6. 

Logo pensei que este índice tinha relação apenas com as maiores dificuldades de acesso que às mulheres negras têm aos serviços de saúde, devido às condições sócio econômicas que somos submetidas: nossos salários são menores, nossa carga horária de trabalho é maior, o índice de escolaridade é menor. Mas, fui pesquisar e descobri que há outros fatores. E óbvio, eu precisava compartilhar com o maior número de mulheres pretas que eu pudesse!

1. Os seios das mulheres negras são mais densos

O significado prático disso é que a detecção do câncer na mamografia é mais difícil. Os seios mais densos também aumentam o risco de desenvolvimento de câncer.



2. Triplo negativo

Um tipo de câncer chamado "triplo negativo" é 2 vezes mais comum em mulheres negras. Este tipo específico de câncer cresce e se espalha rapidamente e não é tratável por hormônios como o estrogênio, progesterona. A questão é que estes são os hormônios geralmente utilizados na terapia hormonal para tratar o câncer de mama. 


3. Mulheres Negras ter câncer de mama em idades mais precoces

As mulheres negras podem apresentar diagnóstico de câncer antes dos 30 anos. O problema é que as diretrizes de prevenção e detecção precoce no Brasil, um país em que a maioria das mulheres são negras, indica que a mamografia de rotina para mulheres entre 50 e 69 anos.
Ou seja, não há um recorte racial nas ações educacionais e preventivas. Mesmo para mulheres negras que tem acesso à informação este dado não é conhecido.
É fundamental que o SUS adote uma ação preventiva com recorte racial e as mulheres negras possam ter exames adequados ainda mais cedo. 


O QUE PODEMOS FAZER?

É claro que o câncer de mama afeta todas as mulheres. No entanto, pesquisas apontam novos dados e com isso devemos levar em consideração que as mulheres negras precisam ser orientadas sobre os perigos do câncer de mama de forma diferente que as mulheres brancas. Quando falamos que há racismo no sistema de saúde, este é um dos elementos: se há necessidade de um tratamento especial à população negra, ele não pode ser negado. 
Quanto antes câncer de mama for detectado mais eficazes são as opções de tratamento.

Além disso:
  • Faça o auto-exame! Se toque. Na imagem abaixo, você tem a orientação de como fazer.
  • Seja incisiva ao com o seu médico sobre a necessidade de fazer a mamografia aos 40 anos.
  • Se você tem mulheres em sua família que tiveram câncer de mama, faça uma mamografia antes de 40 anos.
  • Para mais informações sobre o câncer de mama visite o Site do INCA. Se quiser informações especificas sobre como esta doença afeta as mulheres negras, eu encontrei no link da Aliança Afro-Americana de Câncer de Mama. Está em inglês. Se conhecer algum em português com conteúdo parecido, pode enviar que a gente divulga!

Preta, agora que você já sabe, que tal divulgar?
Fale com sua amiga, sua vizinha, sua mãe. Vamos nos prevenir!

10 MOTIVOS PARA LIBERTAR SEU CRESPO DO ALISAMENTO

Sabemos da dificuldade que é voltar a usar nosso cabelo natural. Não porque ele é feio ou duro, como tentam nos convencer, mas sim porque existem muitas pressões, tanto externas como internas, para que a gente esteja adequada a determinada estética: branca e eurocêntica. 

São muitos anos ouvindo que os cabelos crespos são difíceis de pentear, caros para serem mantidos, que são desarrumados, que precisamos de tempo para mantê-los bonitos. 

Muitas imagens depreciativas ligadas ao cabelo crespo nos perseguem e se livrar delas é um desafio que não é individual mas coletivo porque se apóia no combate aos estereótipos que foram construídos sobre o povo negro e, consequentemente, se apóia na luta contra racismo.

Além disso, muitas de nós nem sabe como é seu cabelo natural. São tantos anos mudando a estrutura do nosso fio que dá até um frio na barriga de pensar que pode não se parecer com aquele cabelo lindo cheio de cachinhos que vimos na TV. Ou seja, um modelo ideal está sendo construído na nossa cabeça novamente e, ao invés de ajudar, ele também nos atrapalha. Afinal, nenhum cabelo é igual ao outro. E eleger um tipo de cabelo com o mais bonito nos coloca novamente em uma busca incessante ao que é "mais aceito socialmente". Resultado: mais prisão, mais sofrimento, auto estima detonada novamente.

Assumir seu crespo natural é algo que envolve coisas que muitas vezes nem temos em mente. que são para além de nossa força de vontade e escolha.

 Por isso é tão difícil.

O que alegra é saber que tem muita gente passando pela experiência da transição e descobrindo um novo amor: um cabelo crespo, lindo e forte, cheio de possibilidades!
Cada mulher que resolveu assumir seu crespo teve uma experiência única e tem muito a compartilhar. Mas, só vivendo para saber. 


Se você ainda tem dúvidas sobre tomar esta decisão, eu tenho uma listinha de motivos que me fazem afirmar todos os dias: assumir meu cabelo foi uma das decisões mais importantes que já tomei!

1. DIMINUIU A QUEDA

O uso de produtos químicos para mudar a estrutura dele (alisamentos, permanentes e afins) enfraquecem o cabelo. Por isso ele cai mais e também tem mais quebra dos fios. Às vezes, o uso de um acessório de cabelo era suficiente para quebrar centenas de fios. Em algumas partes da minha cabeça, meu cabelo já havia caído tanto que nem crescia mais.
Sabe a cena de lavar a cabeça e ver aquele tanto de fios no ralo? Não sei mais o que é isso. Mesmo ao desembaraçar o cabelo não vejo tantos fios no pente e nem aquele mundo de cabelos pela casa! Alegria demais!

2. CRESCEU MUITO!

Ao contrário do que pode parecer, cabelo crespo cresce, cresce muito! Lembra que eu disse que não tinha mais cabelo em algumas partes da cabeça? Eles voltaram! Sim!!! Cada vez que vejo nascer cabelo onde não tinha mais, eu comemoro!

Uma semana de diferença!

3. PINTAR, PINTAR E PINTAR

Sem o uso de alisantes, tenho mais liberdade para mudar de cor. Todo mundo que usa algum produto químico para mudar a estrutura do fio sabe que tem limitações para usar outras químicas. Mesmo quem usa os produtos do Beleza Natural (não se enganem, a promessa de cachinhos também muda a estrutura do fio) não pode colorir o cabelo. 
Desde que parei de alisar já fui platinada, azul, rosa (preferido!), ruiva. E tenho planos, muitos planos!

 Cores

Muitas cores

Mais cores

4. MAIS LIBERDADE DE PENTEADOS

O cabelo crespo, ao contrário do que dizem, te dá mil possibilidades de penteado.

Temos mais liberdade também para uso de acessórios. Eles não escorregam ou caem do cabelo. 

Para quem usa ele alisado, sabe que muitas vezes o uso de acessórios quebra os fios que já estão danificados.

Quer mais opções de penteados? Olha este vídeo! 


5. ECONOMIA DE DINHEIRO

Você já fez as contas de quanto gasta por ano em alisantes? E nos cremes de manutenção? E nos cremes de tratamento para os danos do alisante?

Meu bolso agradeceu tanto quando parei de alisar. Economizei ao menos 15% do meu orçamento por mês! 

Que tal colocar como meta uma viagem? Junte tudo que iria usar em seu cabelo quimicamente tratado em uma poupança e faça uma viagem para comemorar seu visual novo!

Você na praia arrasando de visual novo!

6. ECONOMIA DE TEMPO

Nem me lembro quantas horas eu passava no salão de beleza para fazer todo o processo. Na verdade, faço questão de esquecer! Imagina isso uma vez por mês durante anos da sua vida...
Poderia estar na praia, mas estava com aquele produto químico no meu cabelo. E depois ainda tem o processo de pentear: bastante creme, amassa para um lado, amassa para o outro e amassa mais um pouco...

Acordar mais cedo para pentear o cabelo, quem nunca?

Com meu cabelo natural eu economizei tempo! Isso porque não fico perseguindo um modelo para meu cabelo. Simplesmente, como a maioria das crespas, eu não preciso molhar o cabelo todo dia e desembaraço apenas no banho. Muitas de nós nem penteia todo dia. A verdade é que o cabelo crespo não precisa de pente. As mãos são excelentes aliadas!

7. SAÚDE PSICOLÓGICA

Vocês já devem ter passado pelas seguintes situações:
  • Desespero quando viu a raiz crespa crescer e não tinha dinheiro ou tempo para retocar.
  • Pânico após um corte químico. Apenas 5 minutos a mais e queda na hora. E agora?
  • Malhei e suei muito ( algo humano!)... meu cabelo se desmanchou.

Agora, me fala: quem merece viver sob uma pressão dessa?

Não tenho como relatar a sensação que é não ter medo da chuva, ou não entrar em desespero por que a cabeleireira não tem horário, ou ter que comprar um produto mais barato porque o orçamento não cabe aquele alisante que você se dá bem.

Essas situações eu não vivo mais. Vivo coisas do cotidiano com uma intensidade da qual eu era privada. Ou seja, alisar o cabelo pode nem ser tão confortável assim já que nos priva de um monte de coisas. E o pior é saber que já nos acostumamos a viver sem estas coisas. Mas, saiba: você não precisa viver assim!



8. NUNCA MAIS OUVI: VOCÊ NEM É TÃO PRETA ASSIM

Acredite: nunca mais tive que ouvir esta frase tão racista! Esta frase carrega uma carga racista explícita. Ela trata como se fosse uma ofensa identificar uma pessoa como negra. Quando eu usava cabelo alisado, eu ouvia isso frequentemente. Hoje, não escuto mais. 
Eu imagino que isso se deva ao fato de que, socialmente, somos vistas como mais negras quando assumimos nossas características naturais. O que é uma bobagem, porque ninguém deixa de ser negra porque usa cabelo alisado. 

Mas, os padrões estéticos também são políticos, mesmo que a gente não tenha consciência disso. E o cabelo crespo tem uma relação direta com a auto-aceitação.  Assim, o racista (BABACA QUE É), quando vê seu cabelo alisado se sente na liberdade de te dizer "você nem é tão preta assim". É tipo um elogio: "você foi aceita no grupo dos brancos".
Obviamente, enfrento racismo todos os dias, mas em nenhum momento querem me dar carteirinha de branca. 
Até porque, minha resposta seria bem delicada:

Rihana dedicando muito amor aos racistas!


9. AUTO EM ESTIMA EM ALTA

Não resisti ao trocadilho... ;)

Para tomar a decisão de assumir seu crespo você acaba enfrentando mil fantasmas. São pressões de diversos tipos como falei acima. Se você não estiver bem consigo mesma, não consegue seguir em frente. Você acaba colocando em cheque sua relação com você mesma. É um processo de aceitação diário. 
Então, aprendi a me olhar com mais amor. E hoje cada vez que olho no espelho não consigo não me apaixonar por mim mesma!



10. AMOR POR MIM, AMOR PELAS OUTRAS

No meu processo de transição, mudei meu padrão de beleza. Comecei a me ver com outros olhos e a enxergar as mulheres negras com mais carinho e admiração. Cada vez que olho pra uma mulher negra vejo um pedacinho de mim nelas. 

Sou, por que somos! UBUNTU

Mesmo eu sendo militante a alguns anos, assumir meu cabelo crespo me ajudou a resgatar coisas que estavam perdidas sobre minha ancestralidade. Meu olhar se ampliou e agora me sinto muito mais plena e segura quando vejo o sucesso de mulheres negras.


Esta é minha lista de motivos que me levam a acreditar que assumir meu crespo foi libertador.

Ninguém é obrigada a usar cabelo natural para ser mais negra. Mas, para centenas de mulheres usar seu cabelo natural tem sido um ato de libertação e encontro. Eu sou uma dessas. 

Espero que nossa felicidade seja uma inspiração para que cada mulher que sente vontade de estar natural possa tomar coragem e ir em frente.