10 MOTIVOS PARA LIBERTAR SEU CRESPO DO ALISAMENTO

Sabemos da dificuldade que é voltar a usar nosso cabelo natural. Não porque ele é feio ou duro, como tentam nos convencer, mas sim porque existem muitas pressões, tanto externas como internas, para que a gente esteja adequada a determinada estética: branca e eurocêntica. 

São muitos anos ouvindo que os cabelos crespos são difíceis de pentear, caros para serem mantidos, que são desarrumados, que precisamos de tempo para mantê-los bonitos. 

Muitas imagens depreciativas ligadas ao cabelo crespo nos perseguem e se livrar delas é um desafio que não é individual mas coletivo porque se apóia no combate aos estereótipos que foram construídos sobre o povo negro e, consequentemente, se apóia na luta contra racismo.

Além disso, muitas de nós nem sabe como é seu cabelo natural. São tantos anos mudando a estrutura do nosso fio que dá até um frio na barriga de pensar que pode não se parecer com aquele cabelo lindo cheio de cachinhos que vimos na TV. Ou seja, um modelo ideal está sendo construído na nossa cabeça novamente e, ao invés de ajudar, ele também nos atrapalha. Afinal, nenhum cabelo é igual ao outro. E eleger um tipo de cabelo com o mais bonito nos coloca novamente em uma busca incessante ao que é "mais aceito socialmente". Resultado: mais prisão, mais sofrimento, auto estima detonada novamente.

Assumir seu crespo natural é algo que envolve coisas que muitas vezes nem temos em mente. que são para além de nossa força de vontade e escolha.

 Por isso é tão difícil.

O que alegra é saber que tem muita gente passando pela experiência da transição e descobrindo um novo amor: um cabelo crespo, lindo e forte, cheio de possibilidades!
Cada mulher que resolveu assumir seu crespo teve uma experiência única e tem muito a compartilhar. Mas, só vivendo para saber. 


Se você ainda tem dúvidas sobre tomar esta decisão, eu tenho uma listinha de motivos que me fazem afirmar todos os dias: assumir meu cabelo foi uma das decisões mais importantes que já tomei!

1. DIMINUIU A QUEDA

O uso de produtos químicos para mudar a estrutura dele (alisamentos, permanentes e afins) enfraquecem o cabelo. Por isso ele cai mais e também tem mais quebra dos fios. Às vezes, o uso de um acessório de cabelo era suficiente para quebrar centenas de fios. Em algumas partes da minha cabeça, meu cabelo já havia caído tanto que nem crescia mais.
Sabe a cena de lavar a cabeça e ver aquele tanto de fios no ralo? Não sei mais o que é isso. Mesmo ao desembaraçar o cabelo não vejo tantos fios no pente e nem aquele mundo de cabelos pela casa! Alegria demais!

2. CRESCEU MUITO!

Ao contrário do que pode parecer, cabelo crespo cresce, cresce muito! Lembra que eu disse que não tinha mais cabelo em algumas partes da cabeça? Eles voltaram! Sim!!! Cada vez que vejo nascer cabelo onde não tinha mais, eu comemoro!

Uma semana de diferença!

3. PINTAR, PINTAR E PINTAR

Sem o uso de alisantes, tenho mais liberdade para mudar de cor. Todo mundo que usa algum produto químico para mudar a estrutura do fio sabe que tem limitações para usar outras químicas. Mesmo quem usa os produtos do Beleza Natural (não se enganem, a promessa de cachinhos também muda a estrutura do fio) não pode colorir o cabelo. 
Desde que parei de alisar já fui platinada, azul, rosa (preferido!), ruiva. E tenho planos, muitos planos!

 Cores

Muitas cores

Mais cores

4. MAIS LIBERDADE DE PENTEADOS

O cabelo crespo, ao contrário do que dizem, te dá mil possibilidades de penteado.

Temos mais liberdade também para uso de acessórios. Eles não escorregam ou caem do cabelo. 

Para quem usa ele alisado, sabe que muitas vezes o uso de acessórios quebra os fios que já estão danificados.

Quer mais opções de penteados? Olha este vídeo! 


5. ECONOMIA DE DINHEIRO

Você já fez as contas de quanto gasta por ano em alisantes? E nos cremes de manutenção? E nos cremes de tratamento para os danos do alisante?

Meu bolso agradeceu tanto quando parei de alisar. Economizei ao menos 15% do meu orçamento por mês! 

Que tal colocar como meta uma viagem? Junte tudo que iria usar em seu cabelo quimicamente tratado em uma poupança e faça uma viagem para comemorar seu visual novo!

Você na praia arrasando de visual novo!

6. ECONOMIA DE TEMPO

Nem me lembro quantas horas eu passava no salão de beleza para fazer todo o processo. Na verdade, faço questão de esquecer! Imagina isso uma vez por mês durante anos da sua vida...
Poderia estar na praia, mas estava com aquele produto químico no meu cabelo. E depois ainda tem o processo de pentear: bastante creme, amassa para um lado, amassa para o outro e amassa mais um pouco...

Acordar mais cedo para pentear o cabelo, quem nunca?

Com meu cabelo natural eu economizei tempo! Isso porque não fico perseguindo um modelo para meu cabelo. Simplesmente, como a maioria das crespas, eu não preciso molhar o cabelo todo dia e desembaraço apenas no banho. Muitas de nós nem penteia todo dia. A verdade é que o cabelo crespo não precisa de pente. As mãos são excelentes aliadas!

7. SAÚDE PSICOLÓGICA

Vocês já devem ter passado pelas seguintes situações:
  • Desespero quando viu a raiz crespa crescer e não tinha dinheiro ou tempo para retocar.
  • Pânico após um corte químico. Apenas 5 minutos a mais e queda na hora. E agora?
  • Malhei e suei muito ( algo humano!)... meu cabelo se desmanchou.

Agora, me fala: quem merece viver sob uma pressão dessa?

Não tenho como relatar a sensação que é não ter medo da chuva, ou não entrar em desespero por que a cabeleireira não tem horário, ou ter que comprar um produto mais barato porque o orçamento não cabe aquele alisante que você se dá bem.

Essas situações eu não vivo mais. Vivo coisas do cotidiano com uma intensidade da qual eu era privada. Ou seja, alisar o cabelo pode nem ser tão confortável assim já que nos priva de um monte de coisas. E o pior é saber que já nos acostumamos a viver sem estas coisas. Mas, saiba: você não precisa viver assim!



8. NUNCA MAIS OUVI: VOCÊ NEM É TÃO PRETA ASSIM

Acredite: nunca mais tive que ouvir esta frase tão racista! Esta frase carrega uma carga racista explícita. Ela trata como se fosse uma ofensa identificar uma pessoa como negra. Quando eu usava cabelo alisado, eu ouvia isso frequentemente. Hoje, não escuto mais. 
Eu imagino que isso se deva ao fato de que, socialmente, somos vistas como mais negras quando assumimos nossas características naturais. O que é uma bobagem, porque ninguém deixa de ser negra porque usa cabelo alisado. 

Mas, os padrões estéticos também são políticos, mesmo que a gente não tenha consciência disso. E o cabelo crespo tem uma relação direta com a auto-aceitação.  Assim, o racista (BABACA QUE É), quando vê seu cabelo alisado se sente na liberdade de te dizer "você nem é tão preta assim". É tipo um elogio: "você foi aceita no grupo dos brancos".
Obviamente, enfrento racismo todos os dias, mas em nenhum momento querem me dar carteirinha de branca. 
Até porque, minha resposta seria bem delicada:

Rihana dedicando muito amor aos racistas!


9. AUTO EM ESTIMA EM ALTA

Não resisti ao trocadilho... ;)

Para tomar a decisão de assumir seu crespo você acaba enfrentando mil fantasmas. São pressões de diversos tipos como falei acima. Se você não estiver bem consigo mesma, não consegue seguir em frente. Você acaba colocando em cheque sua relação com você mesma. É um processo de aceitação diário. 
Então, aprendi a me olhar com mais amor. E hoje cada vez que olho no espelho não consigo não me apaixonar por mim mesma!



10. AMOR POR MIM, AMOR PELAS OUTRAS

No meu processo de transição, mudei meu padrão de beleza. Comecei a me ver com outros olhos e a enxergar as mulheres negras com mais carinho e admiração. Cada vez que olho pra uma mulher negra vejo um pedacinho de mim nelas. 

Sou, por que somos! UBUNTU

Mesmo eu sendo militante a alguns anos, assumir meu cabelo crespo me ajudou a resgatar coisas que estavam perdidas sobre minha ancestralidade. Meu olhar se ampliou e agora me sinto muito mais plena e segura quando vejo o sucesso de mulheres negras.


Esta é minha lista de motivos que me levam a acreditar que assumir meu crespo foi libertador.

Ninguém é obrigada a usar cabelo natural para ser mais negra. Mas, para centenas de mulheres usar seu cabelo natural tem sido um ato de libertação e encontro. Eu sou uma dessas. 

Espero que nossa felicidade seja uma inspiração para que cada mulher que sente vontade de estar natural possa tomar coragem e ir em frente.







JACKET/QUIMONO: 8 INSPIRAÇÕES DE LOOKS PARA A GENTE ARRASAR

Você já deve ter visto por aí as fashionistas usando uma peça de roupa como uma jaqueta, sobretudo ou blazer, mas com comprimento maior e uma textura mais maleável. O quimono ou jacket é uma peça comum no outono/inverno na Europa e EUA, mas também está ganhando seu espaço abaixo da linha do Equador. Ele compõe bem visuais mais tradicionais assim como a tendência street wear. Mas, como assim?


"Você está querendo usar um sobretudo no calor tropical do Brasil? Tá loka?" 



Calma, colega!!! É aí que a gente entra! Pesquisamos umas ideias de visuais bacanas que vão deixar seu look arrasante na medida certa para o calor do Brasil.

Em primeiro lugar, vamos tratar esta peça como jacket por que, apesar de ela ter sido inspirada no quimono, estamos tratando de um acessório de moda. Ou seja, o quimono é uma peça originária do oriente e tem muitos significados, inclusive religiosos e sagrados. Para respeitar a cultura do povo que usa, não podemos esvaziar seu conteúdo histórico e chamar do mesmo nome. Então, vamos de jacket!

Ainda estamos no inverno no Brasil e como o frio não ser é de congelar a jacket pode ser uma excelente opção. Tecidos mais grossos são ideais para usar agora, porque protegem do vento. Nos lugares com maior calor, podemos usar tecidos mais finos como viscose, uma camisa masculina e até uma saída de praia! Confesso que o aspecto esvoaçante da saída de praia me seduz... 

As inspirações abaixo vão te surpreender!

1. RETRÔ
Aos amantes do visual da década de 1970, a jacket pode te transportar direto para lá, especialmente se tiver franjas.


2. LOOK MONOCROMÁTICO + JACKET

Para quebrar o look todo preto, ou todo branco, uma jacket pode fazer toda a diferença. Inclusive fica super phyno para um ambiente de trabalho.



                  
3.SHORT + JACKET


Confesso: é o meu preferido! Acho que fica lindo e moderno! Além de ser super adequado para o calorão do Brasil.
Pode ser short curto, bermuda... E a jacket pode ser mais curta, na altura do joelho, ou como um vestido longo. Deste jeito, quem te olha de costas, acha que você está de vestido e de frente: voilá.. shortinho!
Escolha e dive!








 4. ACINTURADO


Qualquer jacket com a ajuda de um cinto, grosso ou fino, fica bem legal acinturada.



 5. VESTIDO + JACKET


Ao contrário do que pode parecer, uma jacket cai muito bem sobre um vestido e também lembra um visual retrô. Sente só...




6. TOP CROPPED

Super queridinho a duas coleções, o top cropped ainda fica pelo menos mais uma estação! Eu, pessoalmente, acho que ele é lindinho e fica bem em todo mundo que quer usar. Com a jacket por cima, o close ainda é maior!




7. CALÇA JEANS + JACKET

Este parece ser o look mais fácil de fazer. Uma calça jeans, uma blusa e uma jaquet bem baphônica vai deixar você elegante para qualquer ocasião. 







8. MISTURA DE CORES E TEXTURAS

Não é todo mundo que fica a vontade em fazer a miscelânea de cores e texturas que a gente sabe que pode fazer. Afinal, o corpitho é seu, as roupas são suas e se você quer, é só usar... Tem todo um charme e uma modernidade em usar diferentes texturas em um look. Para inspirar e encorajar, nada melhor que a linda da Cipriana Quann. Se ela pode, você e eu também podemos!





LOUCA POR BATOM: Conheça o novo batom azul mate da MAC!






Para as apaixonadas por batons, já é notícia velha que os produtos da MAC, marca canadense de maquiagens, não são os mais baratos. Mas, também não é novidade que eles são queridinhos por diversos motivos e especialmente por oferecerem uma diversidade de cores que se adapta em muitos tons de pele. E cores adequadas para a pele negra é tudo o que a gente mais procura e, muitas vezes, tem que adaptar por que não encontramos o que a gente merece: um make de qualidade com um preço justo. Nestas horas é que a MAC ganha nosso coraçãozinho e leva muitos de nossos reais.

E, para as apaixonadas por batons, se preparem: está previsto para o mês de agosto, no Brasil, o lançamento da nova linha de batons com textura matte, a MAC The Matte Lip Collection Summer.  A coleção conta com 22 cores, algumas já são velhas conhecidas (como Ruby Woo e Velvet Teddy) outras são novidades.

E para morrer de uma vez, o melhor é: os batons irão entrar automaticamente na linha regular da marca. Ou seja, quem estava com saudade do Ruby Woo ou do Heroine, prepara o bolso... 

Diante das 22 cores disponíveis, eu enlouqueci!!! Experimentei algumas cores e já escolhi o meu preferido: MATTE ROYAL! É de morrer de paixão! E fica muito lindo em peles negras, especialmente por não ser translúcido, ou seja, é bem pigmentado.


É uma cor nova e fica entre o azul escuro e o roxo, depende da incidência da luz. (foto abaixo). Como todos os batons da MAC que experimentei, ele é muito confortável e tem uma excelente durabilidade.

Matte Royal na luz natural e na luz artificial (depois de comer e beber!)

Para escolher o Matte Royal, eu experimentei as seguintes cores:  Flat Out Fabulous, Antique Velvet, o Flat Out Fabulous, o Instigator, Studded Kiss (os nomes estão na ordem que aparecem na foto ao abaixo). Me apaixonei por todos, mas o bolso não quis levar os outros. 

Foto em luz artificial (sem flash)

As cores da coleção são:
  • Ruby Woo – vermelho com fundo azulado (Retro Matte)
  • All Fired Up – vermelho fuchsia vibrante (Retro Matte)
  • Flat Out Fabulous – uva pink vibrante (Retro Matte)
  • Dangerous – vermelho alaranjado (Retro Matte)
  • Runway Hit – nude pêssego (Retro Matte)
  • Steady Going  – pink claro (Retro Matte)
  • Matte Royal – azul profundo (Matte) (NOVO)
  • Instigator – roxo intenso com fundo preto (Matte)
  • Antique Velvet – marrom aveludado (Matte) (NOVO)
  • Stone – taupe (Matte) (NOVO)
  • Studded Kiss – vermelho queimado (Matte)
  • Persistence – pêssego (Matte) (NOVO)
  • Velvet Teddy – bege (Matte)
  • Whirl – rosa bege queimado (Matte) (NOVO)
  • Naturally Transformed – bege dourado (Matte) (NOVO)
  • Kinda Sexy – rosé nude (Matte)
  • Please Me – rosa suave (Matte)
  • Tropic Tonic – coral (Matte) (NOVO)
  • Heroine – roxo vibrante (Matte)
  • Men Love Mystery – lavanda (Matte) (NOVO)
  • D for Danger – vermelho vibrante (Matte) (NOVO)
  • Pink Pigeon – pink aceso (Matte)

Abaixo, dá uma olhadinha nas cores só para dar vontade de ir lá e deixar todas as  economias! ;)















Como os batons ainda não estão disponíveis, ainda não sei o preço no Brasil. Mas, nos EUA eles custam 16 dólares e na Europa, 20 euros.

SAIBA MAIS SOBRE A LONGA TRADIÇÃO DO USO DE TURBANTES NO MARROCOS

Neste último ano tive a oportunidade de conhecer lugares que nem imaginava que poderia chegar. Aproveitando o tempo de estudos, fora de casa, eu também aproveitei para conhecer lugares que pudessem me oferecer algo a mais sobre meus interesses não apenas acadêmicos (na universidade), mas também sobre minha construção como mulher negra.

Das viagens que fiz uma me marcou especialmente: passei 7 dias no Marrocos. Estive em Marrakesh e Essaouira.


Amanhecer no Deserto do Saara

O Marrocos é um país que fica no continente africano, no extremo noroeste, fazendo fronteira ao norte com o Mar Mediterrâneo e com o estreito de Gibraltar, por onde faz fronteira marítima com a Espanha.  A leste, o país faz fronteira com a Argélia, e a sul com a Mauritânia, através do Saara Ocidental. Mesmo sabendo que eu não estava na África Negra, lugar de onde foram levados os negros para o Brasil, e de onde provavelmente vieram meus ancestrais, eu tive uma emoção que parecia sem explicação ao botar os pés no continente africano. Eu disse que "parecia" não ter explicação porque na minha cabeça também havia construída a imagem do norte do Continente Africano vinculada a um povo branco e europeizado. Algo que lembre os filmes americanos, como Cleópatra vivida interpretada pela Elizabeth Taylor. Inclusive algumas cenas do filme, de 1968, foram filmadas no Marrocos. Mas, logo nas primeiras horas percebi que a gente precisa desconstruir a ideia da África Setentrional (Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul) como um lugar branco. Os avanços científicos e históricos conquistados pelo povo desta região são tão importantes para a humanidade, que o mundo eurocêntrico nos leva a desvincular o continente africano de tamanho progresso. E vincular este continente tão rico à pobreza, miséria e falta de civilidade. Tudo na tentativa de justificar a intervenção branca como potência civilizatória.



Cenário de muitos filmes, inclusive Cleópatra (1968)

Mas, em pouco tempo eu senti que estava sim na África! Muitas similaridades com o Brasil, especialmente o resultado da política de colonização e destruição que os países europeus promoveram. Foram pilhagens sem fim, o uso de povos e países inteiros como moeda de troca em pleno século XX. Inclusive no Marrocos, hoje um dos idiomas oficiais é o francês, assim como em outros países colonizados, o idioma oficial é o idioma do colonizador. As consequências mais visíveis disso são a destruição não só física, mas também na alma de muitas pessoas com que estive. Entretanto, nossas semelhanças positivas são tantas e tão profundas que me emocionaram: um povo extremamente acolhedor, alegre e que soube preservar suas tradições culturais mesmo com tantos ataques. O chá verde com hortelã servido no mesmo copo para todos os convidados é imperdível.

O guia que nos acompanhou, Mostafa Saara, (foto ao lado), grande apaixonado por seu país e guia desde os 16 anos, me ajudou a desmistificar centenas de coisas sobre o Islâmismo (maior religião do continente africano atualmente). Mais uma impressão que o ocidente tenta nos passar totalmente equivocada e cheia de segundas intenções. Uma religião, que tem suas especificidades, como todas as outras e é respeitada por seus seguidores. As mesquitas, em Marrakesh são proibidas aos turistas. Mas, nos horários de oração vemos os homens, se recolhendo para ir orar, respeitosamente. 

Obviamente, o que mais me encantou em Marrakesh foi a Medina! Eu não perdi a oportunidade renovar o estoque da Central das Divas. Percorri a Medina inteira em busca de tecidos, bijouterias e histórias! E trouxe muuuita coisa. Que em pouco tempo estará disponível para vocês!
Muitos acessórios chegando à Central das Divas

Achei coisas lindas, únicas, feitas com pedras que são encontradas apenas no Marrocos. O artesanato, muitas vezes, é feito ali na sua frente. Na mesma hora a gente se pergunta: onde as mulheres, que vestem burcas, usam essas jóias tão lindas? Soube que é permitido que elas usem acessórios em festas.

Diante de tanta coisa linda, tive que aprender outra coisa: a lei da pechincha! É algo cultural. Eles dão o preço mais alto e começa o jogo. Compramos coisas com até 70% do preço inicial. Outra característica que me fez sentir em casa: muitas cores e alegria! A Medina é um lugar divertido e bonito de se ver... Com uma diversidade de estampas, texturas e cheiros. Mas, não se engane... é lotado! Tem que ter paciência e muita boa vontade para andar muitos quilômetros naquele calor. É gente do mundo todo procurando coisa boa, autêntica e barata!


Além disso,  quem me lê, sabe que a minha paixão é o turbante, além de renovar o estoque da Central das Divas (ou seja, muita novidade chegando em breve) eu descobri histórias fantásticas sobre os turbantes no Marrocos. Em cada região, há uma tradição diferente sobre o uso do turbante. Ele não tem valor religioso, como em outras regiões do continente africano, mas é muito importante culturalmente e é usado como proteção contra o sol ou estético. É um acessório que tem seu uso preservado, especialmente pelos berbéres (primeiro povo a povoar o Marrocos) por cerca de 3000 mil anos! Pesquisei e conversei com os marroquinos sobre os turbantes e os principais detalhes que consegui descobri são:

  • Os berbéres (mais ao norte do país) usam turbantes curtos (até 2 metros) e amarelos.
  • No Anti -Atlas, também conhecido como Pequeno Atlas - que é uma cordilheira montanhosa no sudoeste do Marrocos - usa-se turbante preto mesmo no calor. O tamanho médio é de 6 metros. Oh, qual seria minha alegria conseguir um turbante de 6 metros!
  • Na região Daraa e Tafilalti, usa-se turbante colorido e o tamanho é entre 6 e 22 metros. Se ficaria feliz com um tecido de 6 metros, imagina então um com 22 metros Não tive sorte desta vez...
  • No deserto do Saara, o tamanho é no máximo de 6 metros, pode-se usar apenas branco, cinza ou preto.
  • Nas cidades médias, centros, especialmente por causa dos turistas, as pessoas mais jovens têm vergonha de usar. O uso é restrito à pessoas mais idosas.
 Outra curiosidade super interessante é a forma como os tecidos são coloridos. Eles são pintados artesanalmente com plantas da região: a alfafa dá a cor verde, a páprica dá o vermelho e o açafrão colore os tecidos amarelos. Para fixar as cores naturais, são usados vinagre e limão, depois se mantém o tecido por 3 dias no sol.
Depois de descobrir isso tudo, eu não poderia deixar escapar a oportunidade de ser turbantada por um marroquino. E fui! Estávamos em uma fábrica de tapetes, rumo ao deserto do Saara e o Mostafa me turbantou. O vídeo está aqui embaixo. A amarração não é fácil e é especifica para quem precisa proteger o rosto, do sol, do calor, do vento. Aprendi algumas outras típicas do Marrocos e em breve postarei no nosso canal no YouTube.


Aprender de perto coisas tão importantes pra mim e para o povo negro me fez pensar ainda mais em como desconhecemos o outro lado da história. O lado da história de um povo que foi atacado, vilipendiado, mas manteve sua alegria, força de trabalho e criação. Mais do que isso, andar nas ruas e ser confundida como uma africana, pra mim, foi um orgulho. Em nenhum lugar me diziam como brasileira. Tive orgulho, me senti pertencendo. Me fez pensar no quanto estamos separados, mas no quanto ainda temos em comum. 

Mesmo com tantos ataques estamos de pé e precisamos nos manter assim. Descobrindo as histórias de nossa ancestralidade por nós mesmos e fazendo com que elas cheguem às novas gerações de uma forma com que elas possam sentir orgulho desde cedo de suas origens!


Eu, devidamente turbantada!




        


RASPEI O CABELO! E AGORA!?

Raspei a cabeça, sim! 
Minha decisão não foi repentina. Na verdade, foi um processo que demorou cerca de 15 anos para acontecer. Na minha adolescência, eu olhava para mulheres brancas e dizia: se meu cabelo fosse como o seu, eu raspava.

Quando apareci de visual novo ( raspei em desde janeiro de 2015), um monte de gente veio me perguntar o motivo. Sim, as pessoas ainda te questionam sobre decisões exclusivamente pessoais. Mas, como entendo que a nossa aparência física, a nossa estética, e os padrões estéticos não são apenas questão de gosto, são também o resultado de nossa relação com o mundo e do mundo com a gente, eu resolvi que o primeiro post do tão demorado Blog da Central das Divas tinha que ser sobre minha decisão de raspar a cabeça. 


As perguntas que me fizeram sobre meu novo visual, em geral não foram invasivas, mas elas refletem um pouco da relação que se faz entre feminilidade e o modo como você usa seu cabelo.

Vejam algumas das respostas que dei e tirem suas próprias conclusões: “eu não tive corte químico, nada deu errado nos meus alisamentos, afinal, eu não aliso mais”; “eu não fiz big chop por causa da minha transição capilar (processo que  eu já havia passado, e demorou alguns anos, mas é assunto para outro post); “eu não deitei para o santo, nem fiz obrigação na minha religião (ainda... porque não vejo a hora!); “eu não precisei de coragem, foi até fácil”; “eu não perguntei sua opinião” (esta resposta foi para o indivíduo que veio me dizer: “EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO”)Ou seja, em geral as pessoas imaginavam que alguma força maior tinha me levado a raspar a cabeça. Como alguém tão feminina como eu poderia continuar sendo feminina com o cabelo raspado? Mais do que isso: como uma mulher negra, que vive em função da sua relação de amor e ódio com seu cabelo pode acordar um dia e raspar a cabeça sem ter sido forçada a isso?

Na verdade, minha decisão de raspar foi por um motivo maior sim: um amor que se consolidou nos últimos anos... O amor a mim mesma. Do jeitinho que eu sou. Meu processo de enegrecimento me levou a me olhar sucessivamente no espelho e ter certeza que minha boca carnuda é linda, que meus olhos castanhos dizem coisas lindas, que o formato do meu rosto combina com minha pele, meu nariz tem um formato que fica mais bonito quando eu sorrio, minha testa grande dá uma expressão especial ao meu perfil, que meu cabelo é meu e posso fazer com ele o que quiser! Percebi que eu não precisava mais de cachos para emoldurarem meu rosto, ou esconderem meus traços de africana da diáspora. Na verdade, posso ter moldura ou não, por que na verdade o que vejo no espelho me agrada e muito! Este foi o grande motivo por trás da minha decisão de raspar a cabeça. A profundidade com que minha auto-estima estava se expressando dia após dia.

Cortar o cabelo não foi difícil. Difícil foi mudar os padrões de beleza que estavam construídos e impregnados em mim. Padrões que fazem com que passemos uma vida tentando ser diferentes do que somos. Padrões que fazem mulheres negras se olharem no espelho e verem suas características como algo feio, algo a ser transformado ou escondido. E ainda tem a sessão de tortura: cabelo crespo é ruim de crescer, se cortar ele pode crescer em um formato inesperado, negra de cabelo curto fica masculinizada. TUDO MENTIRA! E o pior: não conseguimos nem perceber o quanto isso nos destrói. Precisamos primeiro perceber que nossos olhos são treinados para encontrar a beleza apenas em algumas formas e cores, hegemônicas, padronizadas.  Esse é o primeiro passo para a gente desconstruir estes padrões que nos perseguem e destroem. Assim, finalmente poderemos treinar nossos olhos para ver e gostar do que somos e de onde viemos.
Logo depois do corte e minha carinha de feliz com as cabeleireiras
E em janeiro de 2015, me sentindo plena e bela como eu sou, acordei, entrei em um salão e disse: corta! Máquina 2, por favor!

Difícil foi a cabeleireira ter coragem! Gravei um vídeo na hora e ela me perguntou sucessivas vezes se eu teria coragem mesmo. Passou máquina 4, achando que eu não havia percebido e eu disse: corta mais!

Eu amei o resultado. Passados 5 meses, não estou alucinada para que meu cabelo cresça, esperando os cachinhos se formarem a qualquer custo. Na verdade, eu já comprei minha própria máquina e quando quero vou lá e raspo a cabeça novamente. Ou faço uma coloração, ou coloco mini flores. Ou me turbanto. Ou simplesmente passo minutos me admirando, vendo o quanto de mim está ainda mais negra depois que cortei meu cabelo.

Às garotas e mulheres negras que sentem no seu íntimo que precisam fazer algo por si mesma, que estão cansadas de se olharem e não gostarem do que vêem no espelho, não se machuquem, não tenham pressa... Não há nada de errado com você, nem com o espelho. São centenas de anos de construção de padrões que nos degradam, não é nada fácil desconstruir um padrão estético que é reforçado dia após dia: em novelas, comerciais, no momento da paquera. Mas, temos muita preta linda amando seu cabelinho curto, exibindo ainda mais sua beleza preta e isso já é uma forma de incentivo e valorização.
 Mas, a valorização de nossa estética, da estética do povo negro, não se dará separada da luta por melhores condições de vida para nós. Cada vez que conquistamos espaços, e ocupamos estes espaços assumindo as características de nossa ancestralidade temos mais condições de bater na mesa e dizer NÃO, NÃO ME SUBMETEREI. E hoje, com meus cabelos crespos, muito curtos e pintados num rosa intenso, em cada lugar que vou, eu dou o recado, sem precisar nem abrir a boca: NÃO, NÓS NÃO NOS SUBMETEREMOS AOS SEUS PADRÕES.